Vitamina D: Indo além dos requerimentos nutricionais para maximizar os índices zootécnicos

Metabolismo da vitamina D
A vitamina D, também conhecida como a “vitamina do sol”, pode ser obtida quando o indivíduo ou animal se expõe a luz solar e/ou via alimentação. Independentemente da forma de obtenção, a forma basal da vitamina D é a forma inativa, sendo necessário passar por duas etapas de ativação, no fígado e nos rins, para que possa exercer sua função (Figura 01). Nos animais, sobretudo os confinados, a forma de obtenção da vitamina D é essencialmente via ração.
Mais de 30 formas de vitamina D já foram descritas, contudo, as duas mais importantes são a vitamina D2 (ergocalciferol) e a vitamina D3 (colecalciferol). No entanto, para que a vitamina D exerça suas funções, ela precisa ser transportada pela circulação associada à proteína ligadora de vitamina D, denominada DBP (Vitamin D-Binding Protein). A DBP apresenta menor afinidade pela vitamina D2 (sendo eliminada e excretada, sem cumprir seu papel) em comparação com a D3, contribuindo para diferenças na estabilidade e no metabolismo dessas formas.
Quando o suíno consome a vitamina D3 na ração, ela é absorvida no intestino e obrigatoriamente precisa passar pelo fígado, onde a enzima 25-hidroxilase realiza a primeira hidroxilação, convertendo-a em 25-hidroxivitamina D3 (25(OH)D3). Alterações na função hepática, decorrentes de desafios metabólicos, como estresse, micotoxinas, entre outros, podem interferir nessa etapa e, consequentemente, na disponibilidade dos metabólitos da vitamina D, levando a perdas relacionadas às funções da vitamina D no metabolismo animal.
Após a primeira hidroxilação, a 25-hidroxivitamina D3 precisa passar por uma segunda etapa de biotransformação, sendo convertida a 1,25-dihidroxivitamina D3 (1,25(OH2)D3). Essa transformação ocorre nos rins, pela ação da 1-α-hidroxilase e, assim como no fígado, danos aos rins podem afetar a ação dessa enzima. Além dos danos renais, a idade também pode afetar a atividade da 1-α-hidroxilase, tendo redução significativa na sua atividade em animais mais velhos.
A 1,25(OH2)D3, também conhecida como calcitriol, ao chegar aos tecidos e se ligar aos receptores de vitamina D (VDR) desempenha as funções clássicas e não clássicas, as quais serão descritas posteriormente.
Em suma, a vitamina D3 (colecalciferol) presente na ração é absorvida no intestino delgado e, após entrar na circulação, é transportada pela proteína ligadora de vitamina D (DBP). No fígado, é hidroxilada pela enzima 25-hidroxilase e convertida em 25(OH)D3, posteriormente, esta sofre uma nova hidroxilação nos rins através da enzima 1α-hidroxilase, sendo convertida em 1,25(OH)2D3 (calcitriol) – sua forma biologicamente ativa.

Figura 01: Processo de obtenção e conversão da vitamina D3 da forma inativa para a forma bioativa (fonte: gerado por IA).
Requerimentos nutricionais da vitamina D
Os primeiros experimentos práticos com a vitamina D na nutrição animal, incluindo suínos, datam das décadas de 1920 e 1930, logo após a descoberta e isolamento da vitamina D por Elmer McCollum e Harry Steenbock. Esses cientistas se dedicaram a compreender o raquitismo e a relação desse nutriente com o metabolismo de cálcio e fósforo.
Com o passar dos anos, diversos estudos foram realizados a fim de compreender os efeitos da vitamina D, em função da espécie, genética, idade e fase produtiva, sobre parâmetros de desempenho zootécnico. Em uma breve análise das Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos (Tabela 01), observa-se que os níveis recomendados mantiveram um padrão de segurança para evitar problemas ósseos, como raquitismo e osteomalácia, e à adequada utilização de cálcio e fósforo. As variações observadas entre as edições das tabelas e as linhagens genéticas refletem ajustes relacionados ao melhoramento genético, ao consumo e ao nível de produtividade dos animais.
Tabela 01: Níveis médios de vitamina D recomendados ao longo das últimas edições das Tabelas Brasileiras para Aves e Suínos e de duas linhagens genéticas comerciais.
*Nota: Na 5ª Edição (2024), a recomendação varia de acordo com o consumo diário de ração projetado e o nível de produtividade da granja (Desempenho médio vs Superior).
Posteriormente, o meio acadêmico, ao aprofundar os estudos descritos na literatura sobre a vitamina D e o balanço de cálcio/fósforo (efeito clássico), encontrou um efeito positivo dela na melhoria dos parâmetros reprodutivos, produtivos e imunitários (efeito não clássico). Esses achados ampliaram o interesse pela avaliação de diferentes fontes e estratégias de suplementação da vitamina D na nutrição animal.
Vitamina D: qual a melhor forma de fornecimento
O fornecimento da vitamina D3 (colecalciferol) via ração é de suma importância para atender aos requerimentos nutricionais dos animais. No passado, o fornecimento da vitamina D era única e exclusivamente na forma de vitamina D3 (colecalciferol). Posteriormente, a indústria se valeu da suplementação de 25-hidroxivitamina D3 (25(OH)D3) e, atualmente, na forma de 1,25-dihidroxicolecalciferol glicosídeo, que garante os melhores resultados.
Dentre as formas naturais de fornecimento do 1,25-dihidroxicolecalciferol (1,25(OH)2D3) destacam-se as fontes obtidas a partir de espécies de plantas como Solanum glaucophyllum, Cestrum diurnum e Trisetum flavescens. No entanto, essas plantas possuem variações no conteúdo de vitamina D ativa e de reserva glicosídica, sendo a espécie mais estudada e que apresenta melhores resultados, Solanum glaucophyllum. Sua estrutura glicosídica é maior e mais estável, garantindo melhor capacidade de armazenamento do 1,25-dihidroxicolecalciferol (1,25(OH)2D3).
A suplementação adicional de vitamina D na forma de 1,25-dihidroxicolecalciferol glicosídeo tem se mostrado importante, pois esta contorna etapas de hidroxilação no fígado e nos rins em momentos críticos da produção, como, por exemplo, em desafios causados por estresse térmico, metabólico (sobrecarga hepática, por exemplo), fase produtiva, idade, dentre outros, além de ter maior estabilidade e liberação mais lenta no intestino dos animais.
Vitamina D na forma ativa: maximizando resultados na suinocultura
É notório que a fêmea suína moderna apresenta elevado potencial produtivo, com aumento de prolificidade e de leitões desmamados por fêmea/ano. Mas esse avanço também aumenta a pressão sobre o metabolismo mineral, a estrutura óssea e a capacidade de manter a matriz por mais ciclos produtivos, demandando atenção ao manejo nutricional adequado para minimizar a ocorrência de descartes por problemas reprodutivos, locomotores ou prolapsos de órgãos pélvicos (principais causas de descarte na suinocultura moderna).
A vitamina D, sobretudo na forma ativa, entra como uma ferramenta nutricional importante nesse cenário, indo muito além da mineralização óssea. A forma biologicamente ativa, o 1,25(OH)₂D₃, liga-se ao receptor VDR presente em diferentes tecidos, incluindo útero e miométrio, ativando mecanismos relacionados à função muscular, metabolismo de cálcio e fósforo e atividade reprodutiva. Dessa forma, o status da vitamina D pode estar relacionado a processos fisiológicos importantes no período do parto.
Estudos em matrizes suínas mostram que a associação entre a vitamina D3 e suplementação da 1,25(OH)₂D₃-glicosídea resulta na redução do tempo de parto, melhoria quantitativa e qualitativa de colostro, leite e desempenho dos leitões. Além disso, ela participa da manutenção da função muscular e da estrutura óssea, podendo contribuir para a redução de problemas locomotores quando o status nutricional é adequado.
Conclusão
A suplementação com formas ativas da vitamina D, como o 1,25(OH)2D3-glicosideo, pode representar uma estratégia nutricional complementar para matrizes suínas, especialmente em fases de elevada demanda metabólica. Por atuar por meio do receptor da vitamina D (VDR), participa da homeostase de cálcio e fósforo, da função muscular e de processos relacionados à reprodução e à lactação. Quando utilizada em níveis tecnicamente estabelecidos, pode contribuir para o suporte ao desempenho produtivo e à longevidade da matriz moderna.
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