Saúde locomotora de matrizes suínas: fatores de risco, nutrição e manejo

A saúde do aparelho locomotor é um dos pontos críticos para a longevidade e a produtividade das matrizes suínas. Em sistemas intensivos, as fêmeas apresentam elevado peso corporal e são mantidas sobre pisos com diferentes características de dureza, abrasividade, umidade e capacidade de drenagem. Ao mesmo tempo, os cascos possuem pequena área de contato para suportar esse peso. Essa combinação faz com que alterações nos cascos, membros e articulações possam comprometer a movimentação, o acesso à água e à alimentação e, consequentemente, a produtividade e a permanência da fêmea no plantel. Dessa forma, a saúde locomotora deve ser entendida como resultado da interação entre genética, crescimento, nutrição, alojamento e ambiente (KRAMER et al., 2024; ENGILES et al., 2022).
A ocorrência de lesões de casco merece atenção especial. Em estudo realizado em 129 rebanhos comerciais brasileiros, envolvendo 12.364 matrizes avaliadas entre 2013 e 2023, Kramer et al. (2024) observaram que o crescimento e a erosão da almofada plantar apresentaram a maior prevalência, seguidos pelas lesões da linha branca e rachaduras horizontais da parede do casco. Os autores também verificaram influência de fatores relacionados ao sistema de produção, à paridade e ao alojamento durante a gestação, reforçando o caráter multifatorial da saúde dos cascos (KRAMER et al., 2024).
Principais alterações e fatores de risco
Entre as alterações mais observadas estão o crescimento excessivo e a erosão da almofada plantar, rachaduras de parede, lesões de linha branca, rachaduras de sola, bem como o sobre crescimento das unhas. Essas lesões podem provocar dor, inflamação e claudicação, principalmente quando atingem estruturas mais profundas ou apresentam infecção secundária. A distribuição do peso entre os membros também deve ser considerada, uma vez que as unhas laterais dos membros posteriores estão submetidas a maior carga, o que pode contribuir para a maior ocorrência de lesões nessa região.
O ambiente exerce papel importante na manutenção da integridade dos cascos. Piso excessivamente abrasivo, escorregadio, irregular ou úmido, além de falhas de limpeza e drenagem, pode favorecer a ocorrência de lesões. Em sistemas de gestação coletiva, a movimentação e as interações sociais também devem ser consideradas. No entanto, os efeitos do sistema de alojamento não são uniformes. Em estudo conduzido em rebanhos comerciais brasileiros, matrizes alojadas em grupo durante a gestação apresentaram menor índice global de lesões de casco em comparação às mantidas individualmente, embora os próprios autores ressaltem a necessidade de novas avaliações para confirmar essa relação em diferentes condições de produção (KRAMER et al., 2024). Assim, recomenda-se avaliar o conjunto de fatores presentes na granja, evitando atribuir a ocorrência de claudicação ou lesões a um único elemento.
Nutrição e formação da futura matriz
A prevenção dos problemas locomotores começa antes da entrada da leitoa no plantel. A formação corporal equilibrada desde a fase fetal e, posteriormente, durante a recria é fundamental para que o desenvolvimento muscular ocorra de forma compatível com o crescimento das estruturas ósseas, articulares e dos cascos. Dessa forma, a nutrição deve acompanhar o potencial genético do animal, com atenção ao fornecimento de energia, proteína, vitaminas e minerais e, principalmente, à taxa de crescimento ao longo da formação da futura matriz.
Entre os nutrientes relacionados à integridade do aparelho locomotor, destacam-se cálcio, fósforo, zinco, cobre, manganês, aminoácidos sulfurados e vitaminas envolvidas na diferenciação celular e na queratinização. O zinco, o cobre e o manganês participam de processos relacionados à formação e manutenção dos tecidos córneos, enquanto cálcio e fósforo são fundamentais para a mineralização óssea. A biotina também apresenta importante participação na formação dos tecidos queratinizados. Entretanto, o efeito da nutrição deve ser interpretado dentro do equilíbrio da dieta, uma vez que a integridade do casco resulta da interação entre nutrição, genética, crescimento e condições ambientais (KRAMER et al., 2024; PIERDON; PARSONS, 2026).
Estudos recentes reforçam a relação entre saúde locomotora, integridade dos cascos e longevidade das matrizes. Rohrer et al. (2025), avaliando mais de 3.600 leitoas, demonstraram que medidas objetivas de mobilidade e características relacionadas à estrutura dos membros podem auxiliar na identificação de animais com maior risco de apresentar problemas locomotores, por exemplo. Esses resultados reforçam a importância de acompanhar a estrutura locomotora ainda durante a formação das futuras reprodutoras.
Do ponto de vista nutricional, evidências recentes indicam que a fonte dos microminerais pode influenciar alguns aspectos da integridade dos cascos, embora os resultados não sejam uniformes para todos os indicadores. Em estudo longitudinal publicado por Pierdon e Parsons (2026), a substituição parcial de fontes inorgânicas por fontes orgânicas de zinco, cobre e manganês reduziu a probabilidade de lesões e a perda de peso durante a lactação, mas não alterou a ocorrência de claudicação ou a longevidade das matrizes. Esses resultados reforçam o potencial da estratégia nutricional, mas também demonstram que seus efeitos devem ser avaliados de acordo com o tipo de lesão e as condições de produção.
Resultados anteriores em matrizes hiperprolíficas também demonstraram que a substituição parcial de fontes inorgânicas por fontes orgânicas de Zn, Cu e Mn pode modificar respostas relacionadas ao metabolismo mineral e ao desempenho das fêmeas e de suas leitegadas. Entretanto, esses resultados não devem ser extrapolados diretamente para a saúde locomotora, reforçando a necessidade de avaliar cada estratégia nutricional de acordo com o objetivo proposto (SOLÀ-ORIOL et al., 2021).
O que podemos fazer na prática para prevenir problemas locomotores?
- Monitorar rotineiramente a locomoção, a condição dos cascos e as lesões dos membros, estabelecendo critérios de intervenção antes da evolução para quadros mais severos;
- Avaliar as condições do piso, considerando umidade, abrasividade, limpeza, drenagem e presença de irregularidades, relacionando esses fatores ao padrão de lesões observado no rebanho;
- Na recria, controlar a taxa de crescimento e garantir o atendimento das necessidades de minerais, vitaminas e aminoácidos, considerando o objetivo de formar uma futura matriz estruturalmente adequada;
- Revisar o programa mineral considerando fonte, nível e equilíbrio entre os nutrientes;
- Registrar as lesões por tipo, severidade, idade/paridade e localização, permitindo identificar padrões do rebanho e direcionar as medidas corretivas;
- Considerar a claudicação como uma condição multifatorial. Quando o problema estiver presente, devem ser investigados simultaneamente casco, articulações, piso, alojamento, manejo, nutrição e possíveis causas infecciosas.
A saúde locomotora das matrizes é resultado da interação entre nutrição, genética, manejo, alojamento e condições ambientais. A prevenção e o monitoramento contínuo das lesões são fundamentais para reduzir impactos sobre a produtividade, longevidade e bem-estar das fêmeas. Assim, estratégias integradas e direcionadas às condições de cada rebanho são essenciais para a manutenção de matrizes saudáveis e produtivas.
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