Saúde entérica na suinocultura: novas estratégias nutricionais diante das novas restrições aos antimicrobianos

30-Out-2026
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Da redução do uso de antimicrobianos promotores de crescimento à construção de uma nova estratégia para a saúde intestinal.

A suinocultura mundial atravessa uma importante transformação no conceito de controle dos desafios sanitários e produtivos, sobretudo ao que diz respeito a saúde intestinal. A necessidade de reduzir o uso de aditivos melhoradores de desempenho, associada à crescente preocupação mundial com a resistência antimicrobiana, tem impulsionado a busca por estratégias nutricionais capazes de preservar o desempenho, a eficiência alimentar e a saúde intestinal.

O banimento do uso de antimicrobianos promotores de crescimento no setor de produção animal foi implementado de forma gradual na Europa, culminando em 2006, com a retirada de diversas moléculas utilizadas para esta finalidade.

Atento a esse novo panorama da produção animal, o Brasil vem, desde então, estabelecendo uma série de políticas voltadas a proteção da saúde pública e à segurança dos alimentos, o que inclui a necessidade do uso consciente   de antimicrobianos na produção animal. Esse movimento ganhou novo capítulo em 2026 com a Portaria SDA/MAPA nº 1.617, que proibiu, em todo o território nacional, a importação, fabricação, comercialização e uso de aditivos melhoradores de desempenho contendo determinados antimicrobianos (a norma inclui avoparcina, bacitracina, bacitracina de zinco, bacitracina metileno disalicilato e virginiamicina) classificados como importantes para a medicina humana ou veterinária. Esta regulamentação reforça que o futuro da produção não está simplesmente em retirar uma ferramenta, mas em desenvolver uma estratégia integrada de nutrição, sanidade, manejo, biosseguridade e qualidade de água.

Para a suinocultura brasileira, a conformidade com os requisitos sanitários e regulatórios nacionais e internacionais é fundamental para sustentar a posição do país como o quarto maior produtor e terceiro maior exportador mundial de carne suína. Essas adequações quanto às restrições ao uso de antimicrobianos promotores de crescimento contribuem para manter e ampliar o acesso aos mercados importadores, fortalecer a competitividade do setor e assegurar a confiança dos consumidores.

Por fim, é importante destacar que a restrição se refere ao uso desses antimicrobianos como aditivos melhoradores de desempenho e não significa a eliminação do uso responsável de antimicrobianos quando clinicamente indicados e sob orientação veterinária.

Saúde intestinal: o ponto central da nova estratégia

O período pós-desmame é um dos momentos mais críticos da produção de suínos. A mudança abrupta da dieta, separação da matriz, alteração do ambiente e mistura social podem provocar redução do consumo, alterações na morfologia intestinal, comprometimento tanto na barreira, quanto na microbiota intestinal e maior ocorrência de diarreia. Além disso, nessa fase observa-se uma baixa proteção imune dos animais, pois há a queda dos níveis de anticorpos maternais e o sistema imune desses leitões ainda está em fase de desenvolvimento.

Desta forma, as novas estratégias nutricionais devem buscar não apenas controlar bactérias potencialmente indesejáveis, mas também promover um ambiente intestinal funcional e resiliente, favorecendo o equilíbrio da microbiota, a integridade da barreira intestinal e o fortalecimento da resposta imunológica dos animais.

Nesse contexto, os aditivos nutricionais que antes eram conhecidos apenas pela capacidade de melhorar ganho de peso ou conversão alimentar, passaram a ser considerados e utilizados também pela sua capacidade de atuar sobre a microbiota, reforço na barreira intestinal, resposta inflamatória, resposta imunológica, digestão e absorção de nutrientes.

Dentre as estratégias nutricionais mais utilizadas para a construção de uma nova estratégia para a saúde intestinal, atualmente destacam-se: ácidos orgânicos via água de bebida e via ração, probióticos e prebióticos, óleos essenciais e óleos funcionais e soluções de mitigação dos riscos causados por micotoxinas.

Ácidos orgânicos na água de bebida: a primeira frente de atuação

A água representa uma oportunidade estratégica para utilização de aditivos durante períodos em que o consumo de ração pode estar reduzido, como nos primeiros dias após o desmame. A administração de aditivos via água de bebida tornou-se uma alternativa interessante em situações de estresse, porém, para que estes aditivos sejam efetivos no trato gastrointestinal é de suma importância que a água apresente um bom padrão de qualidade.

No que tange à qualidade da água, é fundamental diferenciar pH de potabilidade de pH de acidificação estratégica. Para água destinada aos suínos, a EMBRAPA apresenta como referência de potabilidade e palatabilidade uma faixa de pH de 6,4 a 8,0, entretanto, quando o objetivo é utilizar ácidos orgânicos para acidificação estratégica, o pH-alvo pode ser significativamente menor.

Em um estudo realizado com leitões recém-desmamados avaliando água com diferentes faixas de pH (pH 4, pH 5 e pH 6) obtidas através do uso de blends de ácidos orgânicos, demonstrou-se que o menor pH (pH 4) reduziu a excreção fecal de E. coli, mas também reduziu significativamente o consumo de água. Por outro lado, o grupo de animais que receberam água com pH 5 apresentou numericamente o maior ganho diário e menor mortalidade, embora sem diferença estatística significativa. Neste estudo é possível concluir que um programa de acidificação não deve buscar simplesmente o menor pH possível. O objetivo deve ser encontrar um ponto de equilíbrio entre acidificação, controle microbiológico, palatabilidade e manutenção do consumo hídrico.

Dentre os ácidos mais utilizados em programas de acidificação estão o ácido fórmico e ácido lático (devido à alta capacidade de reduzir o pH e à forte ação antimicrobiana da fração não dissociada), frequentemente associados a outros ácidos, como acético e propiônico.

Ácidos orgânicos na ração: acidificação e função intestinal

Os ácidos orgânicos, quando fornecidos via nutrição, são outra importante ferramenta nutricional. Na dieta, podem reduzir o pH do conteúdo gastrointestinal, favorecer condições para a atividade de enzimas digestivas e exercer atividade antimicrobiana, principalmente na forma não dissociada.

No pós-desmame, essa característica ganha importância porque a capacidade de acidificação gástrica do leitão pode estar comprometida, enquanto a dieta passa por uma grande mudança em relação ao leite materno. Revisões de literatura sobre saúde gastrointestinal de leitões destacam os ácidos orgânicos como uma das principais estratégias nutricionais estudadas para controlar os desafios do pós-desmame.

Entre as diferentes moléculas disponíveis, os ácidos orgânicos de cadeia curta e seus derivados, especialmente aqueles relacionados ao ácido butírico, apresentam uma característica adicional: além de sua função como acidificante, o ácido butírico está diretamente relacionado ao metabolismo das células epiteliais e à manutenção da função intestinal.

Ocorre que o ácido butírico, quando em sua forma livre, apresenta uma série de questionamentos, seja em virtude da sua estabilidade, palatabilidade e disponibilidade ao longo do trato gastrointestinal.  Nesse contexto, a indústria de nutrição animal evoluiu e desenvolveu novas formas de apresentação, ao complexar o ácido butírico com uma molécula de sódio ou cálcio, transformando em butirato de sódio ou butirato de cálcio e posteriormente protegendo com uma camada de gordura, tornando o ácido mais estável para atingir o intestino. Embora tenham melhorado a disponibilidade, uma nova tecnologia de complexação ao glicerol trouxe mais eficiência ao processo, formando então a tributirina.

A tributirina é um triacilglicerol formado por três moléculas de ácido butírico esterificadas ao glicerol. Inicialmente, as pesquisas eram focadas em sua utilização em dietas de leitões, porém, atualmente novos enfoques de utilização têm sido apresentados, sobretudo em dietas de fêmeas em fase reprodutiva.

Em leitões desmamados, pesquisas experimentais avaliaram a suplementação de tributirina e observaram efeitos sobre desempenho, morfologia intestinal, microbiota e metabólitos. Outros trabalhos também investigaram a tributirina em modelos de desafio inflamatório, demonstrando potencial de modulação da resposta intestinal.

Já a inclusão de tributirina nas dietas de fêmeas suínas em fase reprodutiva apresenta potencial para contribuir para a eficiência produtiva das matrizes, especialmente durante a gestação e lactação. Estudos recentes indicam benefícios como redução na ocorrência de natimortos e aumento do peso total da leitegada ao nascimento. Também foram observados resultados tanto na composição do leite (aumento dos teores de gordura e proteína, além de elevação no teor de IgA no colostro).

Probióticos e prebióticos: trabalhando com a microbiota

Os probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidade adequada, podem proporcionar benefícios ao hospedeiro.

Na suinocultura, quando o tema probiótico é abordado, espécies dos gêneros Lactobacillus, Bacillus, Bifidobacterium, Enterococcus e leveduras estão entre os grupos estudados, haja vista que, seu potencial está relacionado à competição com microrganismos indesejáveis, produção de metabólitos, modulação da resposta imune e interação com a barreira intestinal.

Em termos práticos, os probióticos na nutrição de suínos apresentam potencial para beneficiar diferentes fases da produção, contribuindo para o equilíbrio da microbiota intestinal, a integridade da mucosa e a eficiência produtiva. Em fêmeas em fase reprodutiva, podem auxiliar na saúde intestinal das matrizes, modular a resposta imunológica e favorecer determinados indicadores reprodutivos, além de apresentar potencial para influenciar a composição do colostro e do leite e, consequentemente, a saúde e o desenvolvimento dos leitões. Na fase de creche, período marcado pelo estresse do desmame e pela adaptação a novas dietas, os probióticos podem contribuir para a redução da ocorrência de diarreia, a manutenção da barreira intestinal, o aproveitamento dos nutrientes e a melhora do ganho de peso e da conversão alimentar. Já na fase de terminação, sua utilização busca otimizar a digestibilidade dos nutrientes, a eficiência alimentar e o desempenho zootécnico, com possíveis reflexos sobre a uniformidade dos lotes e a qualidade da carne.

Os prebióticos, por sua vez, fornecem substratos seletivamente utilizados por determinados microrganismos da microbiota.

Em fêmeas em fase reprodutiva, ingredientes como mananoligossacarídeos (MOS), frutooligossacarídeos (FOS) e galactooligossacarídeos (GOS) podem favorecer a saúde intestinal e modular a resposta imunológica, com potencial para influenciar a qualidade do colostro e do leite e beneficiar indiretamente os leitões. Na fase de creche, os prebióticos podem estimular a microbiota benéfica, favorecer a produção de ácidos graxos de cadeia curta e contribuir para a integridade da barreira intestinal, auxiliando na adaptação ao desmame e na redução da ocorrência de distúrbios digestivos. Já na fase de terminação, podem contribuir para o equilíbrio microbiano, o aproveitamento dos nutrientes e a eficiência alimentar, com possíveis reflexos sobre o ganho de peso e a conversão alimentar.

A combinação de probióticos e prebióticos — os chamados simbióticos — amplia a possibilidade de trabalhar simultaneamente com o microrganismo e com o substrato que favorece sua atividade.

Óleos essenciais e óleos funcionais: modulação além da nutrição

Os óleos essenciais e/ou óleos funcionais ganharam espaço como ferramentas para modulação da microbiota e suporte à saúde intestinal, tendo em vista que seus efeitos podem envolver atividade antimicrobiana, antioxidante, modulação da resposta imune, digestão e interação com o ambiente intestinal.

Na nutrição de suínos, os óleos essenciais e os óleos funcionais diferem principalmente quanto ao conceito e à composição. Os óleos essenciais são extratos voláteis e aromáticos de plantas, ricos em compostos bioativos, como timol, carvacrol e eugenol, por exemplo, estudados por suas propriedades antimicrobianas, antioxidantes e pela capacidade de modular a microbiota intestinal. Já os óleos funcionais são uma denominação mais ampla, utilizada para óleos ou combinações de ingredientes selecionados por suas funções biológicas na nutrição animal, podendo incluir compostos como o ácido ricinoleico, o cardanol e o cardol, presentes, respectivamente, no óleo de mamona e no líquido da casca da castanha de caju (LCC).

Um estudo conduzido especificamente com leitões de creche avaliou óleos funcionais contendo óleo de mamona e LCC e observou alterações na microbiota associada à mucosa jejunal, além de resultados relacionados à integridade intestinal e ao estresse oxidativo. Os autores destacam o potencial dessa combinação para modular a microbiota e a saúde intestinal de leitões no período pós-desmame.

Esse resultado é particularmente interessante porque desloca a discussão de uma simples ação antimicrobiana para um conceito mais amplo: modular o ecossistema intestinal, buscando reduzir microrganismos indesejáveis sem necessariamente promover uma eliminação indiscriminada da microbiota.

Mitigação de micotoxinas: proteger o intestino para proteger o desempenho

A saúde intestinal também pode ser comprometida por um inimigo menos evidente: as micotoxinas. DON, fumonisinas, zearalenona, aflatoxinas e ocratoxina A podem estar presentes em ingredientes utilizados na alimentação de suínos e provocar efeitos que vão desde redução do consumo e desempenho até alterações imunológicas, intestinais e sistêmicas.

Deste modo, a mitigação deve começar antes da inclusão de um aditivo: monitoramento dos ingredientes, armazenamento adequado, controle de umidade e análise de matérias-primas, e mais recentemente, o biomonitoramento das micotoxinas no sangue, são fundamentais.

Quando a contaminação está presente, diferentes estratégias podem ser utilizadas. O uso de adsorventes minerais se torna uma das ferramentas mais empregadas, embora sua eficácia varie conforme a estrutura química da micotoxina e as características do adsorvente. Para uma melhor eficácia, deve-se combinar o efeito adsorvente desses minerais com compostos que suportem a integridade do animal para que ele possa melhorar o seu potencial de detoxificação das micotoxinas. Isso é obtido pelo uso de extratos de plantas com efeito hepatoprotetor, por exemplo. Além disso, compostos que favoreçam a imunidade dos animais auxiliam na prevenção de danos secundários causados por essas micotoxinas.

Uma nova arquitetura nutricional para a suinocultura

A restrição aos antibióticos como melhoradores de desempenho não significa simplesmente substituir uma molécula por outra. O desafio é construir uma arquitetura de saúde intestinal.

Essa arquitetura pode combinar, nutrição de precisão, qualidade da água, ácidos orgânicos na ração (sobretudo as tributirinas), probióticos e prebióticos, óleos essenciais e funcionais e estratégias para mitigação dos riscos oriundos de micotoxinas. A mensagem central é que nenhuma dessas ferramentas deve ser encarada isoladamente como equivalente a um antibiótico e o futuro da suinocultura deve ser pautado em menos dependência de antimicrobianos e mais estratégia sanitária e nutricional.
 

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