Desafios respiratórios dos suínos: problemas e soluções

A suinocultura moderna tem buscado constantemente estratégias que promovam o bem-estar animal, a saúde respiratória e o desempenho produtivo, especialmente em condições de desafio sanitário e estresse térmico. Nesse contexto, compostos fitogênicos como o extrato de mentol, o extrato de eucalipto e o extrato de Yucca têm despertado interesse devido às suas propriedades biológicas e potenciais aplicações na água de bebida e em sistemas de nebulização.
Em se tratando especificamente da saúde respiratória, comumente associamos este a algum desafio bacteriano ou viral e muitas vezes negligenciamos aspectos ambientais como temperatura, umidade, gases e poeira, combinações essas capazes de originar ou potencializar quadros respiratórios. O correto entendimento e ações que mitiguem esses agentes podem trazer ganhos não só em produtividade, mas também em bem-estar animal e sustentabilidade ao sistema de produção.
A temperatura ambiental influencia diretamente no desempenho, no comportamento, na saúde e no bem-estar dos suínos. Como possuem poucas glândulas sudoríparas funcionais e limitada capacidade de dissipar calor, os suínos são particularmente sensíveis ao calor e, uma vez que a temperatura ambiente ultrapassa a zona de conforto térmico, é comum, observar queda no desempenho zootécnico, aumento na frequência respiratória (ofegação), aumento no consumo de água, redução na fertilidade e desempenho reprodutivo, alterações hormonais e imunológicas, aumento na mortalidade, maior tempo em decúbito e menor atividade. Por outro lado, temperaturas abaixo da zona de conforto térmico aumentam a necessidade de produção de calor corporal, elevando o gasto energético, reduzindo a eficiência alimentar, aumentando a aglomeração dos animais e a predisposição a doenças respiratórias quando associada à alta umidade e correntes de ar.
Vale lembrar que o conforto térmico dos suínos não depende apenas da temperatura ambiente, mas também da umidade relativa do ar. Os níveis ideais de umidade relativa do ar para a criação suínos situam-se entre 40% e 70%, sendo o limite inferior responsável pelo ressecamento das mucosas do focinho e do trato respiratório (maior predisposição a infecções pulmonares) e valores acima do limite superior são prejudiciais aos animais no que tange processos de dissipar calor por evaporação (respiração), sendo propícios para a proliferação de fungos e bactérias, além de facilitar a concentração de gases tóxicos.
A qualidade do ar nas instalações de suínos afeta diretamente a integridade do sistema respiratório dos animais. A decomposição dos dejetos (fezes e urina) acumulados sob as fendas do piso e a respiração dos animais geram gases como amônia (NH3), gás sulfídrico (H2S), dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4). Quando a ventilação é inadequada, esses gases se acumulam e atuam em sinergia com a poeira e patógenos, desencadeando patologias respiratórias severas.
A amônia é o gás mais abundante e problemático na suinocultura, uma vez que pode causar uma reação muco nasal, resultando em destruição de cílios e permitindo a livre entrada de bactérias e vírus no sistema respiratório. O gás sulfídrico é produzido pela decomposição anaeróbica dos dejetos líquidos e por ser mais denso que o ar se acumula nas camadas mais baixas do galpão – próximo ao focinho dos suínos, sendo este gás extremamente tóxico, irritante e insidioso. Quaneo em baixas concentrações o H2S causa inflamação severa nos olhos e nas mucosas do trato respiratório e em altas concentrações o inibe as enzimas da cadeia respiratória celular e bloqueia o centro respiratório no cérebro, levando o animal rapidamente à asfixia química e morte súbita. Dióxido de carbono e metano, embora não sejam gases diretamente irritantes para o tecido pulmonar como a amônia, o seu acúmulo altera a dinâmica gasosa do ambiente, causando a asfixia (o excesso de CO2 reduz a pressão parcial de oxigênio no ar disponível) e a acidose respiratória (a inalação contínua de altas taxas de CO2 eleva os níveis de dióxido de carbono no sangue do animal, gerando hipercapnia e acidose). Isso induz um aumento compensatório da frequência respiratória – taquipneia – sobrecarregando o sistema cardiorrespiratório e gerando letargia e perda de apetite.
O impacto dos gases é potencializado quando associado à poeira em suspensão (composta por descamação de pele, restos de ração e fezes secas). Ao atuar como um vetor mecânico (partículas maiores irritam e inflamam as mucosas do focinho e traqueia, partículas finas ultrapassam os filtros naturais e chegam aos alvéolos pulmonares) e biológico (carrega bactérias, vírus, fungos e endotoxinas diretamente para o interior do sistema respiratório), a poeira danifica diretamente o sistema respiratório dos suínos, aumentando a severidade de infecções pulmonares.
Se há problema, tem que haver solução e a melhor saída para sistemas que buscam sustentabilidade é a natural, sem uso de produtos químicos. A combinação de compostos aromáticos como extratos de menta, eucalipto e Yucca atuam de forma sinérgica no combate a desafios térmicos e respiratórios em suínos.
O mentol, principal composto bioativo da hortelã (Mentha spp.) apresenta propriedades refrescantes, expectorantes e descongestionantes. Seu mecanismo de ação está relacionado à ativação dos receptores TRPM8, responsáveis pela sensação de frescor, podendo contribuir para o conforto respiratório dos animais. Em suínos submetidos a condições de elevada temperatura ambiental, o mentol pode auxiliar na redução do desconforto térmico e favorecer o melhor comportamento de consumo de ração, especialmente quando utilizado em sistemas de nebulização ou incorporação à água de bebida.
O extrato de eucalipto, rico em 1,8-cineol (eucaliptol), é amplamente reconhecido por suas propriedades antimicrobianas, anti-inflamatória e mucolíticas. A utilização desse composto em ambientes de produção animal tem sido associada à melhoria da qualidade respiratória redução da viscosidade do muco e potencial diminuição da carga microbiana ambiental. Em sistemas de nebulização, o eucalipto pode atuar diretamente sobre o trato respiratório superior, promovendo maior conforto respiratório, especialmente em períodos de elevada concentração de poeira e gases irritantes, como a amônia.
O extrato de yucca (Yucca schidigera) destaca-se pela presença de saponina esteroidais e compostos fenólicos. Seu principal benefício na produção animal está relacionado à capacidade de reduzir a volatização da amônia proveniente dos dejetos. Além disso, quando fornecido via água de bebida, pode contribuir para a melhoria da digestibilidade dos nutrientes e para a modulação da microbiota intestinal. A redução das concentrações ambientais de amônia está diretamente associada à melhoria da saúde respiratória, ao menor estresse fisiológico e ao aumento do desempenho produtivo dos suínos.
A aplicação conjunta de mentol, eucaliptol e Yucca pode representar uma abordagem integrada para o manejo de suínos. Enquanto mentol e eucalipto atuam predominantemente na promoção do conforto respiratório e térmico, a Yucca contribui para a melhoria da qualidade do ambiente de criação por maio da redução de emissão de gases nocivos. Em sistemas de nebulização, a combinação de mentol e eucalipto proporcionam uma melhoria no microclima, auxiliando na mitigação do estresse térmico e respiratório. Já a administração via água de bebida possibilita uma ingestão homogênea dos compostos, favorecendo o consumo contínuo pelos animais.
Contudo, a eficácia dessas estratégias depende de fatores como concentração dos extratos, qualidade de água, frequência de aplicação, características do sistema de nebulização e condições ambientais da granja. Dessa forma, recomenda-se que a utilização desses compostos seja baseada em protocolos tecnicamente validados e integrada a programas de biosseguridade, ventilação e manejo nutricional.
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