Estratégias de manejo alimentar na creche: da primeira ração ao máximo desempenho
1. Introdução
O desmame em suínos representa um dos momentos mais desafiadores do ciclo produtivo, sendo caracterizado por mudanças abruptas na dieta, no ambiente e na estrutura social dos leitões. Essas alterações desencadeiam respostas comportamentais, fisiológicas e metabólicas que impactam diretamente o consumo alimentar, a integridade intestinal e o desempenho zootécnico dos animais.
A interrupção do leite materno associada à transição para dietas sólidas frequentemente resulta em redução do consumo voluntário nos primeiros dias pós-desmame, considerada o principal fator responsável pelo post-weaning growth check, caracterizado pela diminuição do ganho de peso e maior suscetibilidade a distúrbios entéricos (WENSLEY et al., 2021). Paralelamente, a menor ingestão de nutrientes, somada ao estresse do desmame, favorece alterações morfofuncionais no trato gastrointestinal, incluindo atrofia de vilosidades, redução da atividade enzimática e inflamação intestinal, comprometendo a digestão e a absorção de nutrientes (ZHENG et al., 2021).
Esse cenário evidencia que a queda no consumo pós-desmame possui caráter multifatorial, envolvendo fatores ambientais, comportamentais e nutricionais, os quais interagem e determinam o desempenho inicial dos leitões na fase de creche.
Diante disso, a adoção de estratégias nutricionais e de manejo torna-se essencial para mitigar os efeitos negativos desse período. Práticas como creep feeding, estímulo ao consumo precoce, formulação de dietas altamente digestíveis e palatáveis, adequação da forma física da ração e utilização de programas multifásicos têm demonstrado potencial para melhorar a ingestão alimentar, preservar a saúde intestinal e reduzir a variabilidade entre animais.
Além disso, o sucesso na adaptação alimentar nos primeiros dias pós-desmame exerce efeito duradouro sobre o desempenho dos suínos, influenciando não apenas a fase de creche, mas também as etapas subsequentes de produção.
2. Fisiopatologia da redução do consumo pós-desmame
Ao analisar a redução do consumo alimentar no período pós-desmame, é essencial reconhecer seu caráter multifatorial, no qual fatores comportamentais, ambientais e fisiológicos interagem e determinam o desempenho inicial dos leitões na fase de creche.
O desmame constitui um evento altamente estressante, marcado pela separação materna, pela reorganização social com estabelecimento de nova hierarquia e adaptação a um novo ambiente. Esse conjunto de estímulos compromete o comportamento exploratório e retarda o início do consumo de ração (WENSLEY et al., 2021), configurando-se como um dos principais gatilhos para a queda no consumo voluntário.
Paralelamente, quando este estresse é somado à menor ingestão de nutrientes, ele favorece alterações estruturais e funcionais no trato gastrointestinal, entre as quais se destacam a atrofia de vilosidades, a redução da atividade enzimática, a modificação da dinâmica das criptas em conjunto de inflamação do epitélio intestinal. Essas alterações comprometem a eficiência digestiva e absortiva, agravando o déficit nutricional inicial (ZHENG et al., 2021).
Como resultado, observa-se atraso no estabelecimento do consumo alimentar efetivo, redução do ganho de peso, maior incidência de distúrbios entéricos e aumento da variabilidade dentro do lote. Esses efeitos, quando não são devidamente controlados, tendem a se prolongar nas fases subsequentes de produção, impactando negativamente o desempenho dos animais (WENSLEY et al., 2021).
3. Estratégias alimentares para mitigar os danos
Sabendo de todo impacto que os animais irão inevitavelmente sofrer no desmame, e sabendo que este é multifatorial, entendemos que as ações para mitigar estes impactos também são multifatoriais. No entanto, no que tange a nutrição, temos estratégias específicas que viabilizam uma melhor qualidade de leitão desmamado e descrechado.
Uma estratégia amplamente difundida é o estímulo ao aprendizado alimentar, denominado de creep feeding, que tem como objetivo principal estimular o comportamento alimentar antes do desmame.
Estudos demonstram que leitões que consomem creep feeding apresentam:
- maior ingestão de ração após o desmame
- maior ganho de peso nas primeiras semanas
- melhor adaptação fisiológica ao alimento sólido (KULLER et al., 2007)
Esses mecanismos de ganhos observados em estudos estão relacionados com a familiaridade da dieta, pois essa adaptação prévia a ingredientes semelhantes aos da dieta de creche favorece o consumo pós-desmame, pois reduz o efeito de neofobia alimentar (HEO et al., 2018).
Apesar dos benefícios, uma parcela significativa dos leitões não consome creep feed, o que gera elevada variabilidade entre animais (MIDDELKOOP et al., 2019), demonstrando que esta é uma ferramenta a ser utilizada, não obstante, não pode ser a única elegível.
3.1 Estratégias alimentares na creche
A ingestão precoce de alimento após o desmame está diretamente associada à facilidade de acesso à ração e à expressão do comportamento exploratório dos leitões. Nesse contexto, a adoção de estímulos alimentares frequentes nos primeiros dias pós-desmame é fundamental para favorecer o início do consumo voluntário.
Os leitões apresentam um padrão de ingestão caracterizado por pequenas e frequentes refeições, além de elevada sensibilidade à qualidade sensorial da dieta. Assim, recomenda-se, nos três primeiros dias, a oferta de pequenas quantidades de ração entre cinco e sete vezes ao dia, distribuídas tanto em comedouros quanto em bandejas acessórias. Essa estratégia amplia o contato com o alimento, estimula a atividade dos animais e facilita a transição para a alimentação sólida.
Adicionalmente, o fornecimento de dietas úmidas (gruel feeding ou papinhas) pode favorecer a ingestão inicial, em função da maior palatabilidade e da similaridade física com a dieta pré-desmame. Entretanto, os resultados dessa prática são variáveis, sendo dependentes da qualidade da dieta e da eficiência do manejo adotado (WENSLEY et al., 2021).
A granulometria e a forma física da dieta influenciam diretamente o comportamento ingestivo dos animais e a eficiência de utilização dos nutrientes. De modo geral, suínos demonstram preferência por dietas peletizadas, as quais reduzem a seletividade alimentar e favorecem o consumo uniforme. Além disso, a peletização pode melhorar a eficiência alimentar e o aproveitamento dos nutrientes, resultando em melhor desempenho zootécnico quando comparada a dietas fareladas, especialmente quando associada a adequada qualidade de pellet (O’MEARA et al., 2020; NEMECHEK et al., 2015).
Além da peletização, dietas altamente digestíveis e palatáveis são fundamentais nas fases iniciais da creche, devendo conter lactose, proteínas de alta digestibilidade e adequada seleção de ingredientes, uma vez que esses fatores estão diretamente associados ao aumento do consumo e ao ganho de peso na primeira semana pós-desmame (WENSLEY et al., 2021).
Outra estratégia relevante é a adoção de programas multifásicos, pois a utilização de dietas sequenciais permite melhor ajuste nutricional às exigências fisiológicas dos leitões, além de proporcionar uma transição gradual para a fase subsequente. Nessa etapa, ocorre a substituição de ingredientes de origem animal por ingredientes de origem vegetal, favorecendo o aumento do consumo, a redução da incidência de diarreia e a melhoria do ganho de peso (GILBERT et al., 2019).
No que tange os aspectos sanitários, a ingestão precoce de ração é essencial para manter a integridade intestinal, prevenindo proliferação de patógenos, fermentação proteica indesejada e inflamação intestinal. Estratégias nutricionais integradas a um bom manejo sanitário garantem o equilíbrio da microbiota e reduzem a incidência da diarreia pós-desmame.
4. Impactos produtivos a longo prazo
Leitões que apresentam maior ingestão alimentar no primeiro dia pós-desmame tendem a expressar melhor desempenho ao longo da fase de creche, com maior ganho de peso, melhor eficiência alimentar e maior uniformidade de lote.
De acordo com Kuller et al. (2007), o consumo precoce de ração está associado à melhoria do desempenho não apenas na fase inicial, mas também nas etapas subsequentes de produção, evidenciando o efeito duradouro do manejo nutricional adequado no período pós-desmame.
5. Considerações Finais
O período pós-desmame representa um ponto crítico na produção de suínos, no qual desafios comportamentais, fisiológicos e nutricionais se sobrepõem, impactando diretamente o desempenho dos leitões. A redução do consumo alimentar nos primeiros dias após o desmame constitui o principal fator limitante do crescimento, estando associada a alterações intestinais, maior suscetibilidade a doenças entéricas e aumento da variabilidade entre os animais.
Diante desse cenário, torna-se evidente que a adoção de estratégias nutricionais e de manejo adequadas é determinante para mitigar os efeitos negativos desse período. Práticas como o estímulo precoce ao consumo, o uso de creep feeding, o fornecimento de dietas altamente digestíveis e palatáveis, a escolha adequada da forma física da ração — com destaque para dietas peletizadas — e a implementação de programas multifásicos contribuem de forma consistente para melhorar a ingestão alimentar, o desenvolvimento intestinal e o desempenho zootécnico.
Além disso, a integração entre nutrição e manejo sanitário é essencial para garantir a estabilidade da microbiota intestinal e reduzir a incidência de distúrbios digestivos, favorecendo uma adaptação mais eficiente dos leitões à dieta sólida.
Por fim, evidencia-se que o sucesso na fase de creche depende diretamente da qualidade do manejo adotado no início do período pós-desmame. Leitões que estabelecem precocemente o consumo alimentar apresentam vantagens produtivas que se estendem ao longo de todo o ciclo de produção, reforçando o conceito de que intervenções bem planejadas nesse momento têm impacto duradouro sobre a eficiência e a rentabilidade do sistema produtivo.
Referências bibliográficas
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GILBERT, Hélène et al. Responses to weaning in pigs divergently selected for residual feed intake. Journal of Animal Science, v. 97, n. 1, p. 43–54, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30371782/
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MIDDELKOOP, Anouschka et al. Pigs like it varied: feeding behavior and pre- and post-weaning performance. Frontiers in Veterinary Science, v. 6, p. 408, 2019. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31803769/
WENSLEY, Madie R. et al. Maintaining continuity of nutrient intake after weaning. Translational Animal Science, v. 5, n. 1, p. txab022, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34841202/
ZHENG, Lan et al. Intestinal health of pigs upon weaning: challenges and nutritional intervention. Frontiers in Veterinary Science, v. 8, p. 628258, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33644153/
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NEMECHEK, J. E.; TOKACH, M. D.; DRITZ, S. S.; FRUGE, E. D.; HANSEN, E. L.; GOODBAND, R. D.; DeROUCHEY, J. M.; WOODWORTH, J. C. Effects of diet form and feeder adjustment on growth performance of nursery and finishing pigs. Journal of Animal Science, v. 93, n. 8, p. 4172–4180, 2015. DOI: 10.2527/jas.2015-9028. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31957788/
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