Estratégias nutricionais sem fosfato inorgânico na suinocultura: o papel da fitase no desempenho produtivo e na mineralização óssea

17-Jun-2026
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Por Miliane Alves e Gustavo Cordero

Nos últimos meses houve preocupação relevante com rotas globais e abastecimento de fosfatos, incluindo impactos associados ao Oriente Médio e risco sobre fluxos marítimos importantes para fertilizantes e fosfatos. Isso afeta disponibilidade e custo internacional, ao mesmo tempo, a indústria de proteína animal enfrenta preocupações com margens mais apertadas, uma demanda crescente por sustentabilidade e eficiência produtiva, elevando a necessidade de alternativas capazes de reduzir a dependência de minerais inorgânicos nas formulações, principalmente o fósforo.

O fósforo ocupa uma posição estratégica porque é um elemento essencial do metabolismo animal, participando diretamente de processos como síntese de ATP, estrutura do DNA e formação óssea. Em animais jovens, a demanda de fósforo é maior devido ao intenso desenvolvimento do sistema esquelético, por isso é essencial atender a essa demanda da forma mais eficiente e economicamente viável.

A volatilidade dos preços, assim como a disponibilidade de fontes de fósforo devido às tensões geopolíticas, são alguns dos principais problemas que a maioria dos nutricionistas enfrenta atualmente. No mercado de fosfato bicálcico (DCP) após um longo período de estabilidade entre 2023 e meados de 2024, observou-se uma aceleração relevante dos preços a partir do segundo semestre de 2024, quando o DCP passou por um movimento de alta consistente e atingiu níveis próximos de R$ 5,5–6,0/kg. Posteriormente, ocorreu uma correção parcial no final de 2025 e início de 2026, com recuo temporário dos preços para níveis próximos de R$ 4,5–4,8/kg. No entanto, o mercado retomou rapidamente a trajetória de alta e voltou a atingir novos máximos, alcançando aproximadamente R$ 6,4/kg nos últimos meses.

Figura 1. Evolução dos preços do fosfato (reais/kg) de julho de 2023 a abril de 2026. Fonte: Expana (2026).

Esse comportamento indica um cenário de maior pressão e volatilidade no custo do fósforo inorgânico, aumentando a relevância econômica de estratégias nutricionais voltadas à melhoria da eficiência de utilização de fósforo, redução da dependência de fontes minerais e otimização de custos de formulação. Nesse contexto, o uso de fitases de alta performance tende a ganhar importância para reduzir ou até eliminar o uso de fosfato inorgânico nas formulações.

Com o objetivo de avaliar uma estratégia nutricional livre de fosfato inorgânico, Coquil e  Letourneau-Montminyo (2026) conduziram um estudo comparando três programas nutricionais: uma dieta controle formulada para atender 100% das exigências de fósforo e cálcio; uma dieta formulada com 150% dessas exigências; e uma dieta sem inclusão de fosfato inorgânico suplementada com 1.000 FTU/kg de fitase. Todas as dietas continham uma inclusão basal de 500 FTU/kg de fitase, sendo que os tratamentos adicionais receberam suplementação extra de fósforo inorgânico ou fitase para atingir os níveis nutricionais propostos.. Para isso, 144 suínos (35 kg de peso inicial) foram distribuídos aleatoriamente em 24 baias contendo seis animais cada. Os animais receberam um dos três tratamentos ao longo de três fases consecutivas (21, 28 e 25 dias): Controle; Dieta com fosfato; Dieta com fitase sem inclusão de fosfato e suplementada com 1.000 FTU/kg de fitase. No período experimental, a dieta sem fosfato apresentou níveis de fósforo digestível e cálcio total semelhantes ao controle.

O desempenho dos animais foi registrado em todas as fases. Um suíno por baia foi avaliado por absorciometria por dupla energia (DEXA) para determinação do conteúdo mineral ósseo (BMC) no início e final de cada fase e foram coletadas amostras sanguíneas para medir fósforo e cálcio plasmáticos.

Os resultados demonstraram que a retirada completa do fosfato inorgânico não comprometeu o desempenho produtivo. Não foram observadas diferenças entre tratamentos para ganho de peso, consumo de ração ou conversão alimentar, confirmando observações anteriores de que níveis elevados de fitase conseguem sustentar crescimento normal mesmo em condições de redução severa do fósforo mineral.

Figura 2. Ganho de peso de animais suplementados. Tratamentos: Controle; Dieta com fosfato; Dieta com fitase sem inclusão de fosfato e suplementada com 1.000 FTU/kg de fitase

Do ponto de vista fisiológico, um dos achados mais relevantes foi que a dieta com fitase não reduziu a mineralização óssea. Pelo contrário, o conteúdo mineral ósseo (BMC) observado foi semelhante ao grupo com maior oferta mineral e superior ao grupo controle em determinados momentos do experimento. Esses resultados podem ser interpretados como evidência de maior capacidade de aproveitamento do fósforo dietético quando há adequada liberação do fósforo fítico e manutenção do balanço cálcio: fósforo digestível.

Figura 3. conteúdo mineral ósseo (CMO). Tratamentos: Controle; Dieta com fosfato; Dieta com fitase sem inclusão de fosfato e suplementada com 1.000 FTU/kg de fitase.

Além disso, a eficiência alimentar no tratamento com fitase foi maior do que nos tratamentos controle e de alta concentração, e a utilização de fósforo foi melhorada em 9,4% e 6,2% em comparação com os tratamentos de 150% e 100% durante as fases 1 e 2, respectivamente. Em termos de utilização de fosfato, a ingestão de fosfato foi reduzida durante as duas primeiras fases de alimentação em 5,9 g/dia no tratamento de 100% e em 13 g/dia no tratamento de 150% em comparação com o tratamento com fitase.

Como implicação técnica, o trabalho reforça que estratégias de superdosagem de fitase podem permitir formulações sem fosfato inorgânico sem perdas produtivas, desde que sejam respeitados níveis adequados de inclusão enzimática e equilíbrio entre cálcio e fósforo digestível.

Resultados semelhantes foram encontrados por Soldevilla et.al., (2023) que avaliaram otimização da eficiência produtiva e redução do impacto ambiental por meio da aplicação de fitase na dieta de suínos em crescimento. O experimento foi conduzido com 137 suínos com 67 dias de idade. Os animais foram alojados em 24 baias contendo 5 ou 6 animais por baia durante um período experimental de 62 dias. Foram comparados três níveis de suplementação com fitase (Quantum Blue®): 500 FTU/kg: dieta com nível convencional de fitase e inclusão de 0,44% de fosfato bicálcico (DCP); 800 FTU/kg: aumento intermediário da dose de fitase, permitindo reduzir o DCP para 0,25%; 1.500 FTU/kg: alta inclusão de fitase, possibilitando eliminação total do fosfato bicálcico da formulação (0% DCP). À medida que a inclusão de fitase aumentou, houve redução gradual do fósforo total da dieta (0,41 → 0,38 → 0,34%), enquanto os níveis de cálcio permaneceram praticamente constantes (0,67–0,69%).

Como resultados, a melhoria na conversão alimentar foi estatisticamente significativa (P = 0,04), representando aproximadamente 4,3% de melhora em comparação aos níveis menores de inclusão. Do ponto de vista fisiológico, os tratamentos com 800 e 1.500 FTU/kg apresentaram tendência de aumento na mineralização óssea, tanto em peso líquido do osso quanto em conteúdo de cinzas, sugerindo melhor aproveitamento mineral. Além disso, o tratamento com 1.500 FTU/kg reduziu a excreção fecal de fósforo e cálcio, indicando maior eficiência de utilização dos minerais e potencial benefício ambiental. Em geral, os resultados demonstram que o aumento da inclusão de fitase até 1.500 FTU/kg permitiu formular dietas com eliminação prática do fosfato inorgânico, mantendo desempenho, preservando características ósseas e reduzindo perdas minerais.

Figura 4. Efeito do nível de inclusão de fitase na ração sobre a excreção de fósforo (P) nas fezes aos 42 e 62 dias de estudo.

Os nutricionistas podem aumentar com segurança os níveis de inclusão de fitase na dieta como estratégia para reduzir a inclusão de fontes de fósforo, desde que considerem o teor de fitato dos ingredientes no momento da formulação e que selecionem uma fitase com perfil de liberação consistente de fósforo disponível, como observado em tecnologias de alta eficiência.

Os resultados demonstraram que o custo incremental associado ao aumento da dose de fitase representou apenas uma pequena fração da economia obtida com a remoção do fosfato inorgânico da dieta. Considerando a fase inicial do estudo, a dieta controle continha 2,88 kg de fosfato DCP por tonelada de ração. Utilizando um valor de referência de mercado de R$ 6,40/kg de DCP, a inclusão dessa fonte mineral representava um custo aproximado de R$ 18,40 por tonelada de ração formulada. Mesmo considerando o incremento da dose de fitase, o custo adicional da enzima representou aproximadamente 15% do valor associado ao fosfato retirado da formulação. Em outras palavras, cerca de 85% do valor anteriormente destinado ao fornecimento de fósforo mineral permaneceu disponível como benefício econômico líquido.

Esses resultados reforçam que estratégias nutricionais baseadas em doses mais elevadas de fitase podem reduzir significativamente a dependência de fontes minerais de fósforo, contribuindo simultaneamente para a redução do custo de formulação e para a sustentabilidade dos sistemas produtivos.

 

Em caso de dúvidas, entre em contato com LAM@abvista.com

 

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