Introdução
Atualmente, vivemos um período turbulento em relação à mortalidade de matrizes, sendo um problema que parece se tornar cada vez mais relevante. Segundo Huang et al. (2025), a mortalidade aumentou, em 5 anos, de 5,2% para 9,7%.
Um dos fatores que dificultam o combate à mortalidade é a complexidade do diagnóstico. Em um estudo (Vara, 2025), observou-se:

- 93,4% das matrizes apresentam lesões pulmonares
- 39,4% apresentam lesões no fígado e/ou baço
- 79% apresentam lesões na bexiga
Mesmo com o conhecimento dos danos presentes, o diagnóstico continua sendo um desafio.
Descrição do caso
Trata-se de uma granja de produção de leitões na Fase 1, localizada em Ejea de los Caballeros, com 780 matrizes produtivas e manejo em bandas a cada 4 semanas. A granja trabalha com uma linha comercial de matrizes Large White x Landrace e apresenta um aumento preocupante na mortalidade.

O caso teve início no começo de 2024, quando, apesar de um cenário de estabilidade sanitária, a granja apresentou dados preocupantes de mortalidade, que vêm se agravando nos últimos anos, especialmente quando associados a problemas sanitários como infecções por PRRS.

Como observado na gráfica 2, o primeiro trimestre de 2024 foi o mais alto dos últimos anos, aproximando-se de 20% de mortalidade na granja, superando inclusive o primeiro trimestre de 2023, quando a granja foi infectada por uma cepa ROSALÍA de PRRS.
O passo seguinte foi determinar o momento em que as matrizes morriam. Os dados confirmaram que as mortes ocorriam no último terço da gestação e na primeira semana pós-parto, sendo mais evidentes no periparto, conforme observado nas gráficas.



Sintomatologia clínica / necrópsias
Foi realizada uma análise detalhada da situação, tanto das matrizes mortas quanto daquelas com sinais clínicos compatíveis com estágios iniciais do problema. Observou-se:
- Matrizes de alto risco (imagem 1):
- Matrizes pálidas, com baixa condição corporal, porém sem perda de apetite
- Ausência de febre
- Alta taxa de mortalidade entre as afetadas

- Achados de necrópsia:
- Ausência de úlceras e outros problemas digestivos e pulmonares
- Lesões hepáticas na maioria das matrizes necropsiadas (imagem 2):
- Hepatomegalia
- Fígados friáveis
- Rupturas hepáticas


Tratamento de choque
Após descartar a realização de análises bioquímicas e laboratoriais e considerando o elevado grau de dano hepático observado nas necrópsias, optou-se pela aplicação de um suplemento hidrossolúvel com função hepatoprotetora para suínos. O produto foi administrado a todas as matrizes da granja, independentemente do estágio produtivo, durante 15 dias. Os resultados foram positivos, com melhora significativa na mortalidade, atingindo um dos menores índices médios dos últimos 5 anos. O período de aplicação foi abril de 2024 (destacado em vermelho na gráfica).

Além disso, observa-se que, após a retirada do produto (área sombreada em laranja), a taxa de mortalidade das matrizes retorna aos níveis anteriores, indicando que o efeito não se mantém ao longo do tempo.
Desenvolvimento do tratamento
Vendo como esse complemento vitamínico havia contribuído para a redução da mortalidade, decidiu-se desenvolver um tratamento rigoroso para estabelecer na granja um protocolo de atuação mantido ao longo do tempo. Como já observado, sabe-se quando as matrizes morrem, portanto, definiu-se o momento de intervenção, de modo que as matrizes recebam o produto no último mês de gestação e na primeira semana pós-parto, com duração total de 35 dias.
Para garantir a dosagem, utilizou-se uma bomba dosadora acionada por água, acoplada a um reservatório de 120 litros, onde era realizada a pré-mistura do complemento vitamínico hidrossolúvel na proporção de 1 litro de produto para 1000 litros de água. Calcula-se a quantidade de produto necessária por matriz para o tratamento:
| L produto | = | 1 L produto | x | 25 L água | x | 35 días | = 0,875 | L produto |
| ────────── | ────────── | ────────── | ────────── | |||||
| matriz | 1000 L água | matriz/dia | matriz |

Com o objetivo de obter resultados mais confiáveis, decidiu-se conduzir o estudo durante os meses de julho, agosto e setembro, de forma que, aleatoriamente, uma parte do lote que compõe a banda recebesse o produto (grupo de tratamento) e a outra parte não (grupo controle).
Resultados
Se os primeiros resultados do tratamento de choque já haviam sido otimistas, estes foram ainda mais expressivos, pois, conforme mostrado na Tabela 2, a mortalidade das matrizes tratadas foi de 1,61%, em comparação com 7,45% no grupo controle.
Se considerarmos a mortalidade do grupo controle como 100% (15 matrizes mortas), o grupo tratamento representaria 26,67%, o que corresponde a uma redução de 73,3% na mortalidade.
Tabela 1. Interpretação da taxa de mortalidade e da redução da mortalidade por grupo de tratamento
| Grupo ttx | Grupo controle | |
|---|---|---|
| Nº porcas por grupo | 248 | 201 |
| Nº de porcas mortas no pré-parto | 2 | 9 |
| Nº de porcas mortas no pós-parto | 2 | 6 |
| Nº porcas mortas | 4 | 15 |
| % mortalidade | 1,61 | 7,46 |
| Mortalidade ponderada | 26,67% | 100% |
| Redução da mortalidade | 73,30% | |
Se extrapolarmos esses valores, podemos dizer que:
- Se ambos os grupos de matrizes NÃO tivessem sido tratados, teriam morrido 33 matrizes,
- Se ambos os grupos tivessem sido tratados, esperaríamos apenas 7 perdas, o que representa uma redução de 26 matrizes, ou seja, 73,3% menos mortalidade.
Avaliação econômica / ROI
Com base nos cálculos do período incluído no estudo, estima-se que, caso todas as matrizes tivessem sido tratadas, a morte de 26 matrizes teria sido evitada, representando uma economia significativa.
Por outro lado, é necessário considerar o investimento no tratamento, tanto no produto quanto na forma de aplicação. Neste caso, foi estimado um investimento total de 806 €. Dessa forma, é possível calcular o retorno sobre o investimento:
| RECEITA-INVESTIMENTO |
|
||||
| ROI = | ───────────────────── | ROI = | ──────────────────────── | = R$ 100 | |
| INVESTIMENTO | R$4.433 |
Evolução ao longo do tempo
Após a realização do estudo no período de junho, agosto e setembro, passou-se a aplicar o tratamento a todo o lote durante o período correspondente ao último terço de gestação e à primeira semana pós-parto. Isso fez com que a mortalidade das matrizes na granja passasse a apresentar valores inferiores aos dos anos anteriores, conforme pode ser observado a seguir:

Estimativa de risco
Foi realizado um estudo de coorte no qual, inicialmente, foi selecionada uma coorte de indivíduos saudáveis expostos e um grupo de indivíduos saudáveis não expostos.
De acordo com os dados analisados no WinEpi, os indivíduos tratados apresentaram entre 1,56 e 13,72 vezes menos probabilidade de morrer. Portanto, considera-se que esse complemento hidrossolúvel atua como um fator protetor.
| Frequências observadas | ||||
|---|---|---|---|---|
| Variável de risco | ||||
| Expostos (tratamento) | Não expostos (controle) | Total | ||
| Estado de saúde | Doentes | 4 | 15 | 19 |
| Saudáveis | 244 | 186 | 430 | |
| Total | 248 | 201 | 449 | |
| Frequências esperadas | ||||
| Variável de risco | ||||
| Expuestos (tratamiento) | No expuestos (control) | Total | ||
| Estado de salud | Doentes | 10,49 | 8,51 | 19 |
| Saudáveis | 237,51 | 192,49 | 430 | |
| Total | 248 | 201 | 449 | |
Conclusões
Ficou comprovado que existem determinados produtos, como neste caso o uso de um suplemento hidrossolúvel composto por vitaminas do complexo B, vitamina E, vitamina C, cloreto de colina e extrato de alcachofra, que podem ajudar a reduzir a mortalidade das matrizes. Alguns de seus componentes são indicados para proteger os animais em situações de carência, estresse ou convalescença, sendo os mais importantes:
- Vitaminas do complexo B:
- Essenciais para o metabolismo
- Participam da formação de glóbulos vermelhos
- Auxiliam o sistema nervoso
- Melhoram o crescimento e o desempenho reprodutivo
- Vitamina E:
- Antioxidante
- Melhora a resposta imune e a saúde reprodutiva
- Vitamina C:
- Reduz o estresse e melhora a saúde dos tecidos
- Fortalece o sistema imunológico
- Auxilia no equilíbrio metabólico em animais doentes
- Cloreto de colina:
- Previne o fígado gorduroso
- Facilita o transporte de lipídios
- Extrato de alcachofra:
- Estimula a função hepática e sua desintoxicação
- Melhora a digestão de gorduras
- Reduz os efeitos tóxicos de micotoxinas e medicamentos
Talvez não seja correto falar em tratamento para um caso específico, mas, ao atuar como hepatoprotetor, protege o sistema metabólico das matrizes e melhora a saúde dos animais.
Estudo apresentado no âmbito da iniciativa INNOVA da Vall Companys.
