X
XLinkedinWhatsAppTelegramTelegram
0
1
Leia este artigo em:

Mistério resolvido: qual é a causa da necrose da orelha?

A resolução do enigma da necrose da orelha oferece a oportunidade de encontrar soluções para médicos-veterinários e produtores.

A necrose auricular suína (NAS) — também conhecida como necrose da orelha ou da ponta da orelha — tem frustrado produtores e médicos-veterinários há décadas. Essa doença está presente em todo o mundo e está associada a condições inadequadas de bem-estar, infecções secundárias e perdas econômicas decorrentes da redução do crescimento. Entretanto, apesar das inúmeras teorias e de décadas de pesquisa, a verdadeira causa da NAS permanecia sem esclarecimento.

Um novo estudo apresentou evidências de que Fusobacterium necrophorum pode induzir diretamente lesões semelhantes às da NAS em suínos, solucionando um debate histórico sobre a causa da doença.

Essa pesquisa representa um importante avanço para produtores e médicos-veterinários que buscam estratégias mais específicas para o controle dessa condição.

O que é a necrose auricular e por que devemos nos preocupar?

A NAS foi descrita pela primeira vez em 1976, embora já tivesse sido relatada informalmente décadas antes. É uma doença que tem intrigado (e frustrado) o setor suinícola devido à sua progressão relativamente lenta, mas com um resultado significativo: a mutilação da orelha.

Durante anos, ela foi associada a uma longa lista de possíveis fatores causais, sendo considerada multifatorial: micotoxinas, Staphylococcus hyicus, Treponema pedis, PCV2, PRRS, Streptococcus, fatores de estresse ambiental, qualidade do ar, umidade ou o comportamento dos suínos.

Entretanto, a doença nunca havia sido reproduzida experimentalmente, o que significa que não se sabia exatamente o que a causava. Em uma tentativa anterior, os pesquisadores reproduziram parcialmente a doença expondo suínos saudáveis a lesões de animais doentes. Esse estudo inicial representou os primeiros passos para esclarecer a seguinte questão: o que realmente causa a necrose auricular em suínos?

O que foi feito e quais foram os resultados?

Os pesquisadores realizaram três ensaios controlados simples-cegos, nos quais o tratamento recebido por cada animal era desconhecido pelos responsáveis pela avaliação dos suínos, reduzindo, assim, o risco de viés:

  • Ensaio 1: Staphylococcus hyicus;
  • Ensaios 2 e 3: Fusobacterium necrophorum.

Cada ensaio seguiu um delineamento semelhante: foram utilizados suínos com cinco semanas de idade, provenientes de uma granja comercial com elevado status sanitário e sem histórico anterior de NAS.

Os suínos foram inoculados por via intradérmica na ponta de uma das orelhas, enquanto a orelha oposta recebeu uma injeção estéril. O objetivo da inoculação intradérmica era simular mordeduras de orelha. Também foram incluídos animais sentinelas para assegurar que a NAS não se desenvolvesse espontaneamente.

Staphylococcus hyicus NÃO causou lesões

No Ensaio 1, nenhum dos suínos inoculados com S. hyicus desenvolveu lesões semelhantes às da NAS.

→ Esse resultado ajuda a excluir um dos agentes frequentemente considerados suspeitos.

Fusobacterium necrophorum reproduziu a lesão clássica de necrose da orelha (Figura 1)

Nos ensaios 2 e 3:

  • 4 de cada 10 suínos do Ensaio 2 desenvolveram lesões idênticas às da NAS;
  • 7 de cada 9 suínos do Ensaio 3 desenvolveram lesões semelhantes às da NAS;
  • As lesões variaram desde vermelhidão da pele até a formação de crostas, progredindo para a morte completa do tecido e o desprendimento da orelha, exatamente como ocorre nos casos observados a campo;
  • A vermelhidão da pele desenvolveu-se em questão de horas, geralmente seguida por uma coloração arroxeada;
  • Aproximadamente dois dias após a inoculação, as crostas já eram visíveis;
  • A necrose levou entre quatro e seis dias para se desenvolver.

Figura 1. Oreja de un cerdo en un estudio controlado con signos de NAP.

Figura 1. Oreja de un cerdo en un estudio controlado con signos de NAP.

Esta é a primeira reprodução da NAS em suínos “naïve”, ou seja, que não haviam sido previamente expostos.

O F. necrophorum foi isolado das orelhas inoculadas dos suínos afetados em ambos os ensaios. Em alguns animais, aproximadamente 10%, a orelha oposta, que não havia sido inoculada, também desenvolveu lesões, sugerindo uma possível disseminação pela corrente sanguínea.

As lesões microscópicas coincidiram com as observadas em surtos de campo

As amostras de tecido das orelhas necróticas apresentaram:

  • Tecido de “reparação”;
  • Perda da pele;
  • Formação de crostas espessas e inflamação;
  • Estruturas filamentosas compatíveis com Fusobacterium spp.

Implicações para a suinocultura

Foi estabelecido que a necrose da orelha em suínos possui uma causa infecciosa: Fusobacterium necrophorum (Figura 2)

Figura 2. Fusobacterium necrophorum al microscopio.

Figura 2. Fusobacterium necrophorum al microscopio.

  1. A identificação de um agente causal abre caminho para uma prevenção específica: Produtores e médicos-veterinários podem agora concentrar-se em estratégias de manejo que reduzam a exposição ao F. necrophorum ou sua entrada por meio de traumatismos na pele, de maneira semelhante à abordagem utilizada para o tratamento do pododermatite infecciosa em bezerros.
  2. Traumatismo na orelha + exposição bacteriana = maior risco. Nossos achados sustentam um modelo no qual mordeduras de orelha, abrasões ou lesões provocadas pelo ambiente criam o ponto de entrada necessário para a infecção. É importante saber que o Fusobacterium é eliminado nas fezes e pode ser encontrado na saliva de suínos saudáveis. Ainda não está claro se qualquer cepa de F. necrophorum é capaz de causar a doença ou se determinados tipos são mais agressivos do que outros, de maneira semelhante ao que ocorre com E. coli ou Streptococcus suis.
  3. A NAS deve ser entendida como uma infecção. Os fatores de estresse ambiental ainda podem contribuir para o desenvolvimento da doença, mas não constituem a única causa. O agente bacteriano é um fator necessário.
  4. Ajustes na biosseguridade podem ajudar. Como o F. necrophorum é comum nas excreções, as granjas que enfrentam problemas com a NAS podem considerar:
    • reduzir a densidade de alojamento;
    • reforçar a limpeza e a desinfecção ao redor dos comedouros e bebedouros;
    • minimizar as oportunidades de traumatismos nas orelhas, incluindo a identificação de suínos agressores e sua retirada das baias.
  5. Um caminho para o desenvolvimento de vacinas ou tratamentos. Com a identificação de um agente definitivo, ferramentas direcionadas contra o Fusobacterium poderão se tornar opções viáveis no futuro.

Conclusão

Este estudo representa um grande avanço: o F. necrophorum é a principal causa da necrose da orelha em suínos.

A capacidade de reproduzir a NAS em um ambiente de pesquisa controlado estabelece uma base sólida para futuras investigações sobre como enfrentar esse problema nas granjas.

Ao concentrar os esforços no manejo da exposição bacteriana e na prevenção de traumatismos nas orelhas, os produtores poderão, finalmente, reduzir a incidência e a gravidade dessa condição relacionada ao bem-estar animal.

Este trabalho foi financiado pelo Ministério da Agricultura de Saskatchewan, por meio do Fundo de Desenvolvimento Agrícola, e pela Results Driven Agriculture Research.

Comentários ao artigo

Este espaço não é um local de consultas aos autores dos artigos, mas sim um local de discussão aberto a todos os usuários da 3tres3.
Insira um novo comentário

Para realizar comentários é necessário ser um usuário cadastrado da 3tres3 e fazer login:

Você não está inscrito na lista A web em 3 minutos

Um resumo semanal das novidades da 3tres3.com.br

Faça seu login e inscreva-se na lista

Artigos relacionados

Bem vindo a 3tres3

Conecte-se, compartilhe e interaja com a maior comunidade de profissionais da suinocultura.

Já somos 211147 Usuários!

Cadastre-seJá é usuário?

tags

Você não está inscrito na lista A web em 3 minutos

Um resumo semanal das novidades da 3tres3.com.br

Faça seu login e inscreva-se na lista