O estudo evidencia como a composição bioativa do colostro, influenciada pela ordem de parto da matriz, pode afetar a sobrevivência, o crescimento e o desenvolvimento intestinal dos leitões.
Após analisar a composição do colostro (Parte I), nesta segunda parte examinaremos seus efeitos sobre a sobrevivência e o crescimento dos leitões.

Sobrevivência dos leitões
A mortalidade nos primeiros dias e durante o período de lactação esteve estreitamente associada à presença de compostos específicos no colostro e de determinados táxons microbianos.
Metabólitos e ácidos graxos do colostro
Entre os principais fatores benéficos, foram identificados a arginina e alguns ácidos graxos essenciais.
- A arginina é conhecida por seu papel na função intestinal e imunológica dos leitões. Estudos realizados com leitões lactentes e desmamados demonstraram que sua suplementação:
- Melhora a integridade intestinal.
- Reduz os danos epiteliais.
- Modula positivamente a resposta imunológica.
A análise das vias metabólicas (Figura 1) também evidenciou um enriquecimento das vias de biossíntese da arginina e do metabolismo do ácido α-linolênico nos grupos com maior sobrevivência.
Essa descoberta reforça a hipótese de que o colostro mais favorável à viabilidade dos leitões se caracteriza não apenas por compostos individuais, mas também por uma estrutura metabólica global mais direcionada ao suporte intestinal e imunológico.

Em relação ao componente lipídico, os ácidos graxos poli-insaturados (AGPI) n-3 parecem desempenhar um papel importante. Em particular, o ácido α-linolênico, o EPA e o DHA estão associados a:
- Efeitos anti-inflamatórios.
- Suporte à barreira intestinal.
- Desenvolvimento neurológico do leitão recém-nascido.
O equilíbrio adequado entre os ácidos graxos n-6 e n-3 também é fundamental: uma proporção subótima pode comprometer a utilização dos AGPI pelo leitão e reduzir seus efeitos benéficos.
Nesse contexto, o aumento de alguns ácidos graxos n-6 nos grupos com maior mortalidade poderia refletir um desequilíbrio lipídico desfavorável.
Microbiota intestinal
O colostro influencia diretamente a microbiota dos leitões. Aqueles com maiores taxas de sobrevivência apresentaram maior presença de bactérias benéficas e produtoras de ácidos graxos de cadeia curta, como Roseburia e Lachnospiraceae.
Crescimento dos leitões
Também foi demonstrado que o crescimento dos leitões está relacionado à composição do colostro e à sua interação com a microbiota intestinal.
Metabólitos e ácidos graxos do colostro

Os leitões com crescimento mais rápido estiveram associados a um colostro mais rico em metabólitos envolvidos no metabolismo energético e na proteção contra o estresse oxidativo.
Entre os compostos mais importantes está a vitamina E, fundamental para o recém-nascido, pois contribui para a redução do estresse oxidativo e o controle dos processos inflamatórios, juntamente com a histidina, os aminoácidos de cadeia ramificada e a carnitina, todos envolvidos no metabolismo energético e na síntese de proteínas.
Por outro lado, a presença de metabólitos como a quinurenina e o ácido γ-aminobutírico (GABA) esteve associada a um menor crescimento.
A quinurenina é um marcador da ativação do metabolismo do triptofano em condições de estresse ou inflamação, enquanto o GABA participa da regulação dos processos neuroendócrinos e intestinais.
O aumento da presença de quinurenina e GABA no colostro poderia refletir um estado fisiológico menos favorável da matriz, com possíveis repercussões no crescimento dos leitões.
Microbiota intestinal
Nos leitões com crescimento mais rápido, observou-se maior presença de táxons associados a uma melhor função intestinal e eficiência digestiva, incluindo Lachnospiraceae, Akkermansia, Eubacterium e Rikenellaceae. Esses microrganismos também participam do metabolismo dos ácidos graxos, o que sugere uma interação entre o colostro, a microbiota e a capacidade de crescimento.
Implicações práticas
Os resultados destacam que a qualidade do colostro, em termos de composição metabólica e lipídica, tem impacto direto na sobrevivência e no crescimento dos leitões.
Em particular, ressalta-se a importância de:
- Dar suporte ao estado metabólico da matriz nas últimas fases da gestação.
- Garantir uma ingestão adequada de aminoácidos essenciais e um equilíbrio correto entre os ácidos graxos n-6 e n-3.
- Considerar o colostro como um modulador precoce da microbiota intestinal.
Em síntese, melhorar a qualidade do colostro representa uma ferramenta fundamental para aumentar a vitalidade dos leitões e otimizar o desempenho da leitegada.
Agradecimentos
A pesquisa foi financiada pelo projeto BOOSTcolostrum (P2022ZTYLS—CUP J53D23018670001) – NextGenerationEU – Plano Nacional de Recuperação e Resiliência (PNRR) – DD nº 1409, de 14/09/2022. https://site.unibo.it/boostcolostrum/it


