Hoje, é quase impossível acompanhar a velocidade das notícias. Como se a guerra comercial ou o conflito entre os Estados Unidos e o Irão (com os seus aliados) não bastassem, temos agora um novo vírus que surgiu. Embora aparentemente sob controlo e estatisticamente improvável de causar uma pandemia, depois da COVID-19, os títulos e as fotos de profissionais de saúde a usar EPI evocam más memórias de 2020 para todos.
Neste dilúvio de notícias, é fácil perdermo-nos no meio do constante vai e vem de informações. Por isso, mais uma vez, vamos dar um passo atrás e tentar priorizar os principais elementos que influenciarão os preços nas próximas semanas.

As colheitas e a ameaça climática
Comecemos pelas colheitas. Estamos em vésperas da colheita do trigo e da cevada no Hemisfério Norte. Até agora, tudo corre bem. Em Espanha, podemos dizer que não teremos uma colheita tão excelente como a do ano passado, mas os últimos relatórios estimam-no em cerca de 1,92 mil milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, as culturas de milho e soja também estão a progredir bem. Em síntese, as colheitas estão a correr satisfatoriamente, como se diz por aí hoje em dia.
Mas não nos enganemos: há sempre um senão. As notícias da chegada do Super Niño, prevista para os meses de verão, começam a influenciar as posições dos fundos de investimento. O Super Niño é uma versão amplificada do fenómeno El Niño, a fase quente do ciclo climático ENSO (El Niño-Oscilação Sul). Em condições normais, os ventos alísios empurram a água quente em direção ao Pacífico Ocidental; com este fenómeno, os ventos enfraquecem e a água desloca-se para o Pacífico Oriental, alterando os padrões de chuva e temperatura em todo o mundo.
Se estivermos a falar de um Super Niño, o aquecimento dos oceanos pode ultrapassar os 2 graus Celsius em média. Os efeitos prováveis incluem secas no Sul e Sudeste Asiático (redução das colheitas de trigo na Austrália, por exemplo), chuvas excessivas na Argentina e no Sul do Brasil (problemas para a plantação de milho e soja) e possível seca no Cinturão do Milho dos Estados Unidos. Por outras palavras, temos uma elevada probabilidade de experienciar um fenómeno climático que tradicionalmente impulsiona os preços dos cereais. Isto acrescenta mais uma camada de incerteza ao mercado. Numa nota mais positiva, também é verdade que houve anos em que a redução da produção de milho na Argentina e no Brasil foi mais do que compensada pelo aumento da produção nos Estados Unidos.
Mercados de fertilizantes, energia e cereais
Outro fator crucial para o sector, que já abordámos, é que o bloqueio do Estreito de Ormuz provocou uma escalada dos preços dos fertilizantes, dado que 20 a 30% dos fertilizantes mundiais (35% da ureia e 45% do enxofre) passam pelas suas águas. O impacto deste aumento de preços não é imediato e demorará aproximadamente seis meses a refletir-se nos preços. Face à subida dos preços dos fertilizantes para a próxima campanha, os agricultores podem reduzir a quantidade aplicada, o que diminuirá a produtividade e, consequentemente, afetará também o preço.
Outro pormenor a considerar é que, dada a incerteza em torno do conflito no Golfo Pérsico, o trigo e o milho estão a mover-se em direções completamente opostas. Os preços do milho subiram, refletindo as flutuações dos preços do crude devido à sua utilização na produção de etanol. Nas últimas semanas, o preço dos stocks de reposição de milho tem vindo a subir, atingindo aproximadamente 232 €/t para entrega imediata até ao final do ano. Entretanto, o trigo na Europa tem sido afctado pela falta de competitividade em comparação com outras origens, e temos visto os preços MATIF descer para níveis típicos do pico da colheita. Há poucas semanas, um concurso saudita de quase 1 milhão de toneladas foi desviado para a região do Mar Negro devido aos elevados preços nos mercados europeus. Com esta queda de preço, o trigo é agora competitivo com o milho, embora isso exclua os stocks para entrega imediata, e não as transações da nova cultura. Um exemplo específico é que o trigo para entrega imediata em junho estava disponível por cerca de 220 €/t, um preço 12 €/t inferior ao preço do milho. O trigo torna-se o cereal mais competitivo nos portos.
Um mercado paralizado pela incerteza
Localmente, em Espanha, o consumo ainda não arrancou e estamos a enfrentar os meses mais quentes com menor consumo. A incerteza gerada pelo surto de peste suína africana na província de Barcelona levou à redução do número de leitões trazidos para abate, resultando numa quebra no consumo de ração, o que é percetível localmente. Com a colheita a pouco mais de um mês de distância, estão a ser oferecidos descontos para o espaço de armazenamento disponível nos portos.
Esta semana, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem agendada uma visita à China. A viagem inclui um encontro bilateral com o presidente chinês, Xi Jinping. Presume-se que serão abordados dois temas cruciais, temas que deixam o mundo em alerta: as disputas comerciais que têm afetado os dois países desde que Trump assumiu o cargo e a expetativa de que Trump pressione Pequim a usar a sua influência para pressionar o Irão a um cessar-fogo, especialmente após o último fim de semana, quando o regime dos ayatollahs rejeitou as condições de cessar-fogo impostas pelos EUA, provocando mais uma vez a ira do presidente Trump no Twitter. Em síntese, o mundo inteiro está a observar estes dois homens e as suas equipas, tentando antecipar os acontecimentos futuros. Sun Tzu, o antigo estratega militar e filósofo chinês, escreveu na sua obra "A Arte da Guerra": "A suprema excelência consiste em quebrar a resistência do inimigo sem entrar em combate", e o mundo estará em suspense para ver se estes dois homens aplicarão esta máxima.
Em síntese, a incerteza continua a dificultar as decisões de compra para posições futuras. De um modo geral, o mercado está a evitar o problema, prevenindo as dificuldades e os riscos de comprar até ao final do ano. Mas devemos lembrar que, embora seja verdade que os preços subiram desde o início do ano, ainda nos encontramos dentro de um intervalo que, pelo menos, não é caro.




