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Do desafio ao biometano: como a suinicultura do Oeste paranaense transformou dejetos em energia e fertilizante

Projeto Suíno Verde mostra como o aproveitamento integral dos dejetos viabiliza energia renovável, biofertilizantes e expansão da atividade na região.

18 Maio 2026
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No Oeste do Paraná, uma das regiões de maior produção de suínos do país, o avanço da atividade trouxe também um desafio proporcional: o maneio e o destino correto dos dejetos líquidos.

O adensamento de explorações e a falta de áreas disponíveis para o destino adequado dos dejetos limitavam a expansão da atividade. Foi nesse contexto que a Primato Cooperativa Agroindustrial, em parceria com a MWM, subsidiária Tupy, desenvolveu o Projeto Suíno Verde.

Em sistemas de acabamento, os animais podem gerar de 3 a 15 litros de dejetos por dia, variando conforme o peso — de cerca de 23 kg na entrada até 130 kg na saída, num ciclo médio de 100 dias. Já as porcas em explorações de reprodução, que mantêm peso mais constante, produzem aproximadamente 30 litros diários por animal. Em propriedades com milhares de cabeças, esse volume representa um passivo ambiental significativo.

Com a implementação do sistema e a possibilidade de retirada do material das propriedades, os órgãos ambientais passaram a autorizar o aumento gradual da população de suínos, destravando o crescimento do setor.

Da exploração à bioplanta: um ciclo circular

A cooperativa mantém hoje 170 propriedades integradas, sendo 28 explorações de reprodutoras, 13 recrias e 129 de acabamento. Para o projeto, porém, os dejetos são recolhidos de 23 unidades.

O processo começa com a recolha dos dejetos brutos nas explorações. A gestão é feita pela fábrica, que realiza a recolha semanal de acordo com o estágio de crescimento dos animais. Para leitões pequenos, é necessário carregar uma vez a cada dois dias; já no final do lote, as cargas tornam-se diárias. A distância média de recolha é de 10 km, podendo chegar a um raio de 22 km de distância da bioplanta.

Os camiões que recolhem os dejetos são abastecidos com o próprio biometano gerado no processo, o que reduz significativamente os custos comparados ao uso de óleo diesel.

Na bioplanta, localizada em Ouro Verde do Oeste, o dejeto passa por etapas de separação e envio aos biodigestores. É ali que ocorre a digestão anaeróbica — processo biológico em que microorganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigénio — resultando na produção de biogás, composto principalmente por metano (CH) e dióxido de carbono (CO).

Bioplanta Primato em Ouro Verde do Oeste - Paraná - Brasil.
Bioplanta Primato em Ouro Verde do Oeste - Paraná - Brasil.

O biogás é capturado e encaminhado à estação de purificação. Parte dele é usada para gerar energia elétrica e térmica. Outra fração passa por um processo de refinaria o que remove o CO e eleva a concentração de metano, originando o biometano, utilizado para abastecer os camiões da Frota Verde — atualmente dois recolhem dejetos e três distribuem ração.

O CO separado também é aproveitado, destinado principalmente aos matadouros para insensibilização de animais, e à indústria química para produção de ureia. Já o digestato, material sólido e líquido remanescente da digestão, torna-se biofertilizante, aplicado em culturas como milho, soja e trigo.

Esses bens de consumo devolvem nutrientes essenciais ao solo de forma equilibrada, reduzindo a dependência de fertilizantes minerais e aumentando a eficiência no uso de recursos.

Resultados ambientais e económicos

No transporte, a substituição do diesel pelo biometano reduz, em média, até 62 toneladas de CO por camião/ano. Com uma frota de 10 camiões, o potencial de mitigação supera 490 toneladas anuais. Além dos ganhos ambientais, o uso de combustível renovável gera economia direta, reduzindo em até 40% os custos operacionais.

Camião movido a Biometano a entregar ração
Camião movido a Biometano a entregar ração

Nas áreas agrícolas, o uso dos biofertilizantes tem melhorado a estrutura e a fertilidade dos solos, elevando a produtividade das lavouras e diminuindo a dependência de adubos externos. A digestão anaeróbica elimina odores e reduz drasticamente a presença de insetos e agentes patogénicos, favorecendo o bem-estar das famílias na envolvente das explorações e fortalecendo as condições sanitárias da produção. Esses avanços tornam a atividade mais atrativa para as novas gerações de produtores.

Cooperação como motor da sustentabilidade

O Suíno Verde vai além da inovação tecnológica: consolida um modelo cooperativo de economia circular. A integração entre produtores, indústria e cooperativa cria um fluxo contínuo de reaproveitamento de dejetos e repartição dos benefícios gerados. Essa estrutura coletiva viabiliza investimentos, garante escala operacional e assegura que os resultados retornem ao campo.

A tecnologia foi adaptada às características da suinicultura regional, priorizando simplicidade, segurança e eficiência energética. À Primato coube estruturar a logística de recolha, transporte e destino, garantindo a sustentabilidade económica do processo. O equilíbrio entre inovação e cooperação torna o modelo replicável em outras regiões, fortalecendo a integração entre agroenergia e produção animal.

Energia limpa e permanência no campo

Pensando na expansão do projeto, a Primato planeia construir duas novas explorações de biogás até 2027. Com unidades instaladas a cada 20 km entre si, a distância máxima de recolha cairia para cerca de 10 km por fábrica, reduzindo custos logísticos e aumentando a eficiência. O modelo prevê que o custo da recolha continue dividido igualmente entre os três envolvidos — Primato, fábrica e produtor, com 33% cada. O impacto económico positivo virá sobretudo do ganho de desempenho nas explorações, já que os produtores terão mais tempo para se dedicar ao efetivo. As novas unidades deverão operar totalmente a biogás, reforçando a autonomia energética e acelerando a descarbonização das atividades.

Processo de geração e distribuição de energia
Processo de geração e distribuição de energia

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