De leitões desmamados a quilos desmamados: uma nova leitura da eficiência na maternidade
Por Gabriel A. Bona – gabriel@tonisity.com
Durante muitos anos, o número de leitões desmamados por fêmea por ano foi tratado como um dos principais indicadores de eficiência da produção suína. E continuará sendo uma métrica fundamental. Afinal, ela reúne componentes importantes, como prolificidade, frequência de partos e sobrevivência pré-desmame.
Mas a suinocultura mudou.
A evolução genética aumentou significativamente o número de leitões nascidos. Ao mesmo tempo, trouxe novos desafios: menor peso médio ao nascimento, maior variabilidade dentro das leitegadas e mais animais vulneráveis disputando colostro, leite e espaço nos tetos.
Por isso, talvez já não seja suficiente perguntar apenas quantos leitões foram desmamados.
Precisamos também perguntar: quantos quilos a maternidade entregou e em quais condições esses quilos chegaram à creche?
Mais leitões, novos desafios
Uma revisão sistemática e meta-análise mostrou que o aumento médio de 4,8 leitões por leitegada esteve associado à redução de aproximadamente 10% no peso médio do total de nascidos e de 12% no peso dos nascidos vivos. A variabilidade de peso dentro da leitegada também aumentou.
Na prática, isso significa que leitegadas maiores podem produzir mais leitões, mas também maior proporção de animais pequenos e heterogêneos.
Esse grupo merece atenção especial.
Em um estudo com 4.068 leitões, os animais com peso ao nascimento igual ou inferior a 1,11 kg representaram apenas 15,2% da população, mas concentraram 43% das mortes pré-desmame. A mortalidade foi de 34,4% nesse grupo, contra 8,2% entre os leitões mais pesados.
O valor de 1,11 kg não deve ser interpretado como um limite universal. Genética, ordem de parto, ambiente e manejo modificam o risco. O estudo demonstra, entretanto, que uma parcela relativamente pequena de leitões leves pode concentrar grande parte das perdas da maternidade.
Por que medir quilos desmamados?
O número de leitões desmamados informa quantos animais sobreviveram. Os quilos desmamados acrescentam quanto crescimento foi produzido durante a lactação.
A equação é simples:
Quilos desmamados = número de leitões desmamados × peso médio ao desmame
Considere duas leitegadas:
- 13 leitões desmamados com média de 5,5 kg: 71,5 kg;
- 12 leitões desmamados com média de 6,5 kg: 78 kg.
Ao avaliar apenas o número de animais, a primeira leitegada parece superior. Ao observar o peso total produzido, a interpretação muda.
Isso não significa que a perda de um leitão possa ser compensada apenas pelo maior peso dos demais. Mortalidade continua sendo uma perda biológica, econômica e de bem-estar.
A conclusão é outra: número de leitões e quilos desmamados respondem a perguntas diferentes e devem ser analisados em conjunto.
Essa abordagem já está presente na pesquisa aplicada. Um estudo envolvendo 150 granjas e mais de 135 mil matrizes avaliou simultaneamente peso ao desmame, quilos desmamados por fêmea por ano e conversão alimentar das matrizes. A análise mostrou que fatores como duração da lactação, alimentação, instalações e manejo estavam associados a esses indicadores.
Portanto, quilos desmamados não são apenas uma proposta conceitual. São uma métrica capaz de ampliar a leitura da eficiência do sistema.
Mas nem todo quilo tem o mesmo valor
Mesmo os quilos desmamados possuem limitações.
A primeira é a idade ao desmame. Leitões desmamados mais tarde tendem naturalmente a ser mais pesados. Comparar pesos sem considerar a duração da lactação pode levar a conclusões erradas.
A segunda é a uniformidade.
Uma leitegada pode apresentar peso total elevado, mas esconder alguns animais muito pesados e vários leitões leves. O total parece bom, porém a creche recebe um lote heterogêneo, com diferentes capacidades de consumo, crescimento e resposta aos desafios sanitários.
Por isso, além do peso médio, é importante acompanhar:
- coeficiente de variação do peso;
- proporção de leitões abaixo de um limite crítico;
- mortalidade pré-desmame;
- idade média ao desmame.
A terceira limitação é a continuidade do desempenho.
Produzir mais quilos na maternidade é importante, mas o valor desses quilos depende da capacidade do leitão de manter o consumo e continuar crescendo depois que o leite materno deixa de estar disponível.
O desmame reúne vários desafios em um único momento: separação da matriz, mudança de ambiente, mistura social e substituição de uma dieta líquida por alimento sólido.
Nesse contexto, não importa apenas quanto o leitão pesa. Também importa se ele está preparado para localizar alimento e água, iniciar rapidamente o consumo e manter a função intestinal durante a transição.
A maternidade precisa preparar o leitão para a próxima fase
O desmame ocorre em um dia, mas a capacidade do leitão de enfrentá-lo é construída desde o nascimento.
Ingestão de colostro, ambiente térmico, acesso ao leite, sanidade, manejo da leitegada e suporte nutricional precoce influenciam o crescimento e a sobrevivência.
Isso também modifica a forma de avaliar intervenções na maternidade.
Não basta perguntar se determinada estratégia aumentou o peso médio. É necessário avaliar:
- quantos quilos adicionais foram produzidos;
- como esses quilos foram distribuídos;
- se houve redução na proporção de leitões leves;
- se o benefício continuou após o desmame;
- e quanto custou produzir esse resultado.
Uma intervenção que aumenta o peso, mas exige custo excessivo ou não gera benefício posterior, pode elevar a produção sem melhorar a eficiência econômica.
De uma métrica isolada para um painel de eficiência
O número de leitões desmamados continuará sendo indispensável. Os quilos desmamados acrescentam uma nova dimensão ao unir sobrevivência e crescimento.
Mas nenhuma dessas métricas deve ser interpretada isoladamente.
Um painel mais completo deveria reunir:
- leitões desmamados por fêmea por ano;
- quilos desmamados por fêmea por ano;
- peso médio ajustado à idade;
- uniformidade da leitegada;
- proporção de leitões leves;
- mortalidade pré-desmame;
- desempenho inicial na creche;
- custo por quilo produzido.
Estamos migrando do número de leitões desmamados para os quilos desmamados como métrica de eficiência. Mas eficiência real não é apenas colocar mais quilos na saída da maternidade.
É entregar leitões mais uniformes, com maior capacidade de consumo, o intestino preparado e condições de continuar crescendo após o desmame.
Mais do que desmamar números, a maternidade precisa produzir leitões preparados para a próxima fase.
Referências
FELDPAUSCH, J. A. et al. Birth weight threshold for identifying piglets at risk for preweaning mortality. Translational Animal Science, 2019.
MOREIRA, R. H. R. et al. Variability of piglet birth weights: a systematic review and meta-analysis. Journal of Animal Physiology and Animal Nutrition, 2020.
PANZARDI, A. et al. Newborn piglet traits associated with survival and growth performance until weaning. Preventive Veterinary Medicine, 2013.
PIEROZAN, C. R. et al. Herd-level factors associated with piglet weight at weaning, kilograms of piglets weaned per sow per year and sow feed conversion. Animal, 2020.
Sobre o autor: Gabriel A. Bona é médico veterinário, mestre em Ciências Veterinárias com ênfase em reprodução de suínos e atua em desenvolvimento técnico-comercial na suinocultura à nível de América Latina pela Tonisity International.
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