Diarreia pós-desmame. Diagnóstico, tratamento e controlo

John M. Fairbrother
06-Abr-2015 (há 11 anos 2 dias)

Diagnóstico clínico, epidemiológico e post-mortem

Em porcos com diarreia o diagnóstico inicial baseia-se principalmente no quadro clínico, que normalmente se caracteriza por doença entérica causada por E. coli. Isto inclui a idade do leitão, as circunstâncias de aparição da doença e as manifestações tais como material fecal em volta do perineo, diarreia, desidratação e morte. Pode ser realizado um diagnóstico preliminar através da observação de um pH alcalino fecal devido à presença de fluído de diarreia secretora. São poucas as alterações patológicas específicas que podem ser atribuídas à doença entérica causada por E. coli.

O odor característico do conteúdo do intestino delgado durante a necropsia é útil no diagnóstico da diarreia pós-desmame causada por E. coli.

Se possível, é preferível realizar a necropsia de um ou mais porcos afectados, logo após a eutanásia para minimizar os efeitos da autólise (figura 1).

Intestino delgado distendido

Figura 1. Porco desmamado com diarreia enviado para um exame post-mortem. O intestino delgado está distendido,
com gás e líquido e apresenta outras lesões macroscópicas específicas.

Ao interpretar as lesões macroscópicas do intestino há que ter em conta se este provém de porcos mortos ou eutanasiados. A presença histopatológica de bactérias Gram-negativas, normalmente muito aderidas à mucosa do intestino delgado, é um indício sólido de que a diarreia foi causada por ETEC.

 

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial de diarreia pós-desmame e doença entérica causadas pela infecção por E. coli complicada por choque inclui salmonelose e gastroenterite transmissível, particularmente quando a taxa de mortalidade é alta e em porcos de mais idade.

 

Identificação de E. coli patogénica

A morfologia, a fermentação de lactose em agar MacConkey e o odor das colónias são uma primeira indicação da identidade das bactérias implicadas na infecção.

As colónias de estirpes de ETEC positivas a F4 (K88) e F18 são quase sempre hemolíticas em agar sangue. Portanto, a presença de colónias hemolíticas é utilizada frequentemente como meio rápido para diagnosticar E. coli patogénica como agente causante.

Não obstante, deve ter-se em conta que estão cada vez a ser encontradas mais e mais ETEC não hemolítica positiva a F4 (K88) no laboratório de referência para E coli da Universidade de Montreal. Além disso, o diagnóstico baseado unicamente na presença de colónias hemolíticas não descriminaria entre ETEC F4 e F18  e STEC F18, o que pode ter muita importância no momento de aplicar estratégias de prevenção, como a vacinação.

A virotipificação, ou determinação de factores de virulência, é a maneira mais definitiva para identificar E. coli patogénica.

A aglutinação em placa, com ou sem partículas de látex, é um método simples e fácil para determinar a presença de E. coli produtora de F4, mas não útil para F18 que se expressa pouco em meios de cultura.

Desde que foi relacionado um pequeno número de grupos O específicos com doença entérica, em alguns laboratórios é identificada E. coli patogénica mediante serotipificação. Não obstante, nem todos os isolados de um serogrupo determinado são patogénicos e esta aproximação é mais útil para estudos epidemiológicos.

Como a E. coli cresce de maneira rápida e fácil em condições de cultura normais, realizar uma PCR a partir de bactérias cultivadas pode ser um modo simples e económico para detectar a presença de E. coli patogénica nas amostras.

Pode ser utilizada a amplificação por PCR multiplex para detectar os genes que codificam para as fímbrias e enterotoxinas de ETEC, relacionadas com a diarreia pós-desmame.

 

Tratamento da diarreia pós-desmame

A diarreia pós-desmame requer um tratamento com electrólitos e antimicrobianos que pode ser administrado inicialmente por vía oral ou parenteral. Os porcos doentes comem e bebem muito pouco, ainda que permaneçam perto do comedouro ou bebedouro.

Posteriormente, os antimicrobianos podem ser adicionados ao alimento ou à água. Devem ser seleccionados antimicrobianos que alcancem o lúmen intestinal, como amoxicilina/ácido clavulânico, fluoroquinolonas, cefalosporinas, apramicina, ceftiofur, neomicina ou trimetoprim.

 

Controlo da diarreia pós-desmame

Consiste na redução dos níveis de E. coli patogénica e manutenção de um ambiente adequado para o bem-estar dos porcos. Devem ser abordados os factores de maneio que predispõem os leitões à diarreia pós-desmame.

Várias estratégias podem contribuir para reduzir o aumento de E. coli patogénica no intestino depois do desmame.

Frequentemente são usados antimicrobianos profilácticos, mas devem ser evitados devido ao alarmante aumento de resistências após o seu uso.

Actualmente, em muitos países, é praticada uma medicação preventiva no alimento na maioria das explorações afectadas. A resistência antimicrobiana é frequentemente induzida aos poucos dias ou semanas. Além das classes de antimicrobianos mencionados anteriormente para o tratamento parenteral, extensamente são utilizados vários aminoglicósidos e a colistina.

A incorporacção de ácidos orgânicos na água administrada ou nas dietas de desmame pode reduzir a acidez gástrica e minimizar a sobrevivência das E. coli ingeridas.

A suplementação da dieta com Óxido de Zinco (ZnO) controla de forma eficaz a diarreia pós-desmame em porcos, mas não parece afectar a colonização bacteriana do intestino já que a excreção fecal é constante.

A alimentação com uma dieta baseada em plasma suíno seco em spray pode melhorar o ganho de peso e diminuir a frequência da diarreia em porcos desmamados a uma idade precoce.

A modificação de alimento mediante a incorporação de fibras solúveis parece ser eficaz.

A administração de uma cultura bacteriana probiótica de Lactobacillus parece inibir a adesão da estirpe ETEC. Não obstante, muitas destas medidas tendem a atrasar a aparição da diarreia pós-desmame em lugar de a prevenir completamente.

lechón

Estratégias para aumentar a resistência de porcos à infecção

Selecção de porcos resistentes

Esta abordagem de prevenção promete ser eficaz e económica a longo prazo ao aumentar a presença de locus resistentes a F4 e F18 na população suína.

Vacinação

A imunidade frente a infecções de E. coli entéricas é humoral (anticorpos) e inicialmente é proporcionada pelo colostro materno, os anticorpos lactogénicos do leite da porca e posteriormente a resposta imunológica intestinal local. Os anticorpos específicos inibem a aderência bacteriana aos receptores nas células epiteliais intestinais e neutralizam a actividade das enterotoxinas ou citotoxinas produzidas pela E. coli.

A imunização materna para a diarreia ETEC neo-natal não é eficaz para o controlo da diarreia pós-desmame.

A vacinação de leitões antes ou no momento do desmame mediante administração oral, normalmente na água de bebida, de estirpes de E. coli positivas a F4 (K88) ou F18 vivas atenuadas ou não toxigénicas protege de forma eficaz os porcos contra a infecção (figura 2).

 

La administración en el agua de bebida de una cepa de E. coli positiva a F4 viva no toxigénica produce una estimulación de la producción de anticuerpos F4 específicos de la mucosa local que bloquea la adherencia bacteriana a las células epiteliales de la mucosa intestinal.

Figura 2. A administração na água de bebida de uma estirpe de E. coli positiva a F4 viva não toxigénica produz uma estimulação da produção de anticorpos F4 específicos da mucosa local que bloqueia a aderência bacteriana às células epiteliais da mucosa intestinal.

 

Tabela 1. Estratégias mais comuns utilizadas para o controlo das infecções por E. coli.

  Estratégias que acabam por ...
  ... reduzir o número de E. coli patogénica ... aumentar a resistência dos animais à infecção
Diarreia pré-desmame • Calor
• Higiene
• Desenho de portas e pavimentos
• Quarentena
• Tudo dentro/Tudo fora
• Parto
• Vacinação materna
• F4, F5, F6, F41
• Porco hiper-imune
• γ-globulina
Diarreia pós-desmame e doença dos edemas • Aumento da idade de desmame
• Calor
• Dieta
• Alta digestibilidade
• Proteína baseada no leite
• Ingestão restringida de alimento
• Higiene
• Aditivos na água
• Ácidos orgânicos
• Suplementos alimentarios
• Ácidos orgánicos
• ZnO
• Plasma porcino secado en spray
• Probióticos
• Vacinas orais de E. coli F4 e F8 viva não toxigénica
• Gema de ovo em pó de galinhas imunes a F4 e F18 por via oral
• Vacina toxóide Stx (doença dos edemas)
• Selecção de animais resistentes a F4 e F18