O peróxido de hidrogénio na desinfecção e a manutenção da higiene nas instalações de água das explorações

Marc Vilamajó y Giol. Biólogo. España

02-Set-2008 (há 17 anos 8 meses 8 dias)
Para garantir a sanidade da água devem ser tidos em conta dois aspectos importantes:

• A potabilização da água

• O estado e a higiene do circuito de repartição desta

A potabilização da água, ao nivel de uma exploração, tende a ser sinónimo de desinfecção, ou seja, a eliminação de microorganismos infecciosos deste meio. Considerando que as características físico-químicas da água são correctas, é colocado um produto desinfectante na água que garanta a ausência de microorganismos patogénicos na mesma durante todo o seu percurso pela instalação, até ao último ponto de saída, onde deverá manter uma concentração que garanta que o produto desinfectante ainda está activo nesse ponto, e que, supostamente, não supera uma concentração que possa ser nociva para os animais.

O princípio activo mais utilizado na desinfecção é o cloro, sob diversas formas. Embora este não seja o único desinfectante que pode ser utilizado, é o único autorizado para desinfecções de água para o consumo humano. Existem outros tipos de moléculas eficazes, como a do peróxido de hidrogénio.

O peróxido de hidrogénio

O peróxido de hidrogénio (H2O2) é uma molécula muito mais conhecida por todo o mundo do que o seu nome indica. É uma molécula de água à qual se juntou um átomo de oxigénio, o mesmo que água oxigenada.

Fig. Quadro comparativo entre peróxido de hidrogénio e compostos clorados

Peróxido de hidrogénio Compostos clorados
Homogeneidade na distribuição do produto Alta De média a baixa
Possibilidade de medição
Sim Sim
Sobredosagem
Inócuo Nocivo
Odor da dose aplicada
Inodoro Sim
Depósitos de calcário
Diminuem Aumentam
Actividade na presença de matéria orgânica
Boa Boa
Carcinogenicidade
Nula Alta
Cinética de actuação Muito rápida Lenta

Esta molécula tem características que a tornam um bom desinfectante: é um produto com um grande poder oxidante, o que o torna muito reactivo perante a matéria orgânica e lhe confere um amplo raio de acção perante os microorganismos: tem bom poder bactericida, virucida e também esporicida. Os microorganismos anaeróbios são mais sensíveis à acção destes produtos, uma vez que não são capazes de sintetizar a catalase, um enzima que pode decompor o peróxido.
Este grande poder oxidante garante uma rápida velocidade de acção, ainda que seja necessário, devido a esta mesma característica, que na sua formulação se juntem produtos que o estabilizem.

Mecanismo de acção

O seu mecanismo de acção consiste na oxidação dos grupos sulfidrilo e das duplas ligações dos enzimas das bactérias, provocando uma modificação na estrutura das proteínas que formam essas enzimas, com a perda da sua função e, consequentemente, a morte celular. Ao nível dos virus pode transmitir esta capacidade de desnaturação das proteínas actuando sobre as da cápside para que, posteriormente, possa actuar sobre o material genético do virus. Ao nivel dos esporos o peróxido pode transmitir o seu poder oxidante para a desorganização do ácido dipocolínico, a molécula que confere a capacidade de resistência tão importante para as formas vegetativas destes esporos.

Assim, vemos que a acção desinfectante do peróxido de hidrogénio baseia-se em vulnerabilizar as estruturas de protecção destas formas microscópicas. Alterar a estrutura das paredes celulares ou das cápsides permite aceder ao interior destes organismos, para que o peróxido prossiga com o seu poder oxidante perante outras estruturas como o ADN, que outras moléculas alterem o funcionamento normal destas células o que, inclusive, a acção mecânica da entrada de água através da membrana celular provoque a morte das bactérias.

Uso na exploração


Como já foi referido, ao uso do peróxido como agente desinfectante, junta-se outra vantagem: a da limpeza. O peróxido de hidrogénio é muito eficiente para a desincrustação, limpeza e manutenção desta, em sistemas de condução e distribuição de água.

Frequentemente, nas instalações de uma exploração, devido à entrada de águas de poços ou outro tipo de fontes pouco controladas, devido ao uso de medicação através da água ou, simplemente, devido a uma estrutura e uns materiais que favoreçam os depósitos de partículas, são gerados pontos onde a acumulação de matéria orgânica facilita a multiplicação dos microorganismos. É muito importante combater estes pontos dado que é aqui que se dá a multiplicação de agentes patogénicos que, escondidos neste biofilm, não reagem com os desinfectantes habituais, e podem reinfectar a água que fornecemos aos animais.

O peróxido de hidrogénio facilita a dissolução de alguns sais, evita a sua precipitação e, inclusive, devido à libertação de oxigénio por parte do peróxido, causa um burbujeo que tem um efeito de limpeza mecânica sobre as superficies.

Este efeito de limpeza é tanto mais intenso que nas instalações onde se aplica, inicialmente podem haver problemas de obstrucção de bebedouros e pontos de saída de água devido à acumulação de materiais sólidos arrastados pelo efeito de limpeza do peróxido de hidrogénio.