Em qualquer sistema de produção pecuária, a etapa final, seja o abate ou a comercialização, é quando o desempenho biológico se transforma numa realidade económica. No entanto, as decisões de comercialização são frequentemente consideradas fixas e uniformes, como se cada porco contribuísse com o mesmo valor por quilograma. Na prática, nada poderia estar mais longe da verdade.
Como os suínos diferem na sua taxa de crescimento, conversão alimentar, estado de saúde e risco de mortalidade, cada quilograma produzido por cada suíno tem um custo diferente.
Além disso, como os matadouros aplicam prémios e penalizações com base no peso e na qualidade da carcaça, cada quilograma também atinge um preço diferente.
O resultado é simples, mas convincente:
Cada porco tem um perfil de rentabilidade único; portanto,
cada quilo tem um valor único.
Este último artigo da série apresenta o conceito de comercialização de precisão, um sistema que visa enviar os porcos para abate pelo seu máximo valor económico, e não apenas com base no seu peso vivo final, utilizando:
O pensamento tradicional pressupõe que, uma vez que um porco atinge o peso de abate, cada quilograma adicional gera aproximadamente o mesmo lucro. No entanto, três fatores contrariam esta premissa:
1. O custo por quilo varia à medida que o porco cresce
No início do período de engorda, as taxas de crescimento aceleram, tornando a margem de lucro muito eficiente. À medida que o porco amadurece, as taxas de crescimento, e consequentemente a margem de lucro, começam a diminuir porque:
Isto é particularmente verdade para os suínos com um desempenho de crescimento abaixo da média, uma vez que não só os factores anteriormente mencionados são mais significativos, como também ocupam espaço que poderia ser utilizado para um suíno mais eficiente. Assim sendo, um "quilo barato" de 110 kg pode tornar-se num "quilo caro" de 130 kg.
2. A mortalidade afeta a estrutura de custos
Um porco que morre no final do período de engorda representa um custo enorme, uma vez que a maioria das despesas já foi incorrida. Os porcos sobreviventes precisam de absorver essas perdas. Isto aumenta o custo por quilo do lote final, muitas vezes de forma significativa.
3. Os matadouros não pagam o mesmo valor por todos os quilos
As tabelas de bónus e penalizações baseadas em intervalos de peso, percentagem de tecido magro e espessura de gordura dorsal implicam que:
alguns quilogramas geram mais receita;
alguns quilogramas geram menos receita;
alguns quilogramas resultam em perdas económicas.
Quando os custos variáveis por quilograma são combinados com a receita variável por quilograma, o resultado é uma curva de lucro que sobe, atinge um pico e depois diminui. Mesmo os produtores que não comercializam os seus produtos de acordo com uma matriz ainda enfrentam custos variáveis por quilograma, pelo que o seu lucro por quilograma também é variável.
O objetivo da comercialização de precisão é identificar este pico e enviar os suínos para abate quando este é atingido.
O marketing de precisão assenta num princípio fundamental:
A rentabilidade não pode ser otimizada até que a variância seja medida.
Para começar, é apenas necessário:
Com estes dados, podem ser criadas duas ferramentas visuais muito úteis: uma fronteira de lucro e um mapa de abate por porco.
A fronteira de rendibilidade é uma curva que apresenta:
Os produtores podem construir uma versão básica em três etapas:
Passo 1: Estimar o custo por quilo durante a engorda
A sua folha de cálculo podería ser visata assim:
| Intervalo de peso | IC | Custo total por kg de ganho |
|---|---|---|
| 80–100 kg | 2,5 | Baixo |
| 100–115 kg | 2,9 | Médio |
| 115–130 kg | 3,4 | Alto |
O impacto da mortalidade deve ser incluído adicionando um custo rateado por porco sobrevivente e calculando uma curva de custo marginal diária.
Passo 2: Traçar a curva de valor do porco
Esta pode incluir:

Passo 3: Representar num gráfico o rendimento por quilo em cada ponto de peso
O gráfico resultante tem normalmente o seguinte formato:

Esta curva mostra o ponto de comercialização económico, e não o biológico. Pode até sobrepor os resultados reais de vendas a esta curva para ver o quão próximos estão do ponto ideal (Figura 3).

Esta ferramenta leva a fronteira a outro nível ao colocar cada porco dentro da grelha, mostrando:
| Peso carcaça (kg) - Ajustes de preços nos matadouros | |||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| ≤49 | 50 | 55,1 | 60,1 | 65,1 | 70,1 | 75,1 | 80,1 | 85,1 | ≥90,1 | ||
| Espessura da gordura dorsal | ≤6 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% |
| 7 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% | |
| 8 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% | |
| 9 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% | |
| 10 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% | |
| 11 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% | |
| 12 | 77% | 86% | 86% | 97% | 100% | 100% | 100% | 91% | 77% | 53% | |
| 13 | 72% | 81% | 86% | 86% | 100% | 100% | 100% | 81% | 72% | 53% | |
| 14 | 72% | 81% | 86% | 86% | 100% | 100% | 100% | 81% | 72% | 53% | |
| 15 | 67% | 77% | 81% | 81% | 91% | 91% | 86% | 72% | 63% | 53% | |
| 16 | 67% | 77% | 81% | 81% | 91% | 91% | 86% | 72% | 63% | 53% | |
| 17 | 67% | 77% | 81% | 81% | 91% | 91% | 86% | 72% | 63% | 53% | |
| 18 | 67% | 77% | 77% | 77% | 81% | 81% | 81% | 72% | 53% | 53% | |
| 19 | 67% | 77% | 77% | 77% | 81% | 81% | 81% | 72% | 53% | 53% | |
| 20 | 67% | 77% | 77% | 77% | 81% | 81% | 81% | 72% | 53% | 53% | |
| ≥21 | 63% | 72% | 77% | 77% | 81% | 81% | 77% | 72% | 53% | 53% | |
| Peso carcaça (kg) - Número de porcos | |||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| ≤49 | 50 | 55,1 | 60,1 | 65,1 | 70,1 | 75,1 | 80,1 | 85,1 | ≥90,1 | ||
| Espessura da gordura dorsal | ≤6 | 1 | 1 | 6 | 12 | 30 | 22 | 9 | 1 | ||
| 7 | 13 | 32 | 124 | 146 | 31 | 4 | |||||
| 8 | 5 | 40 | 182 | 261 | 94 | 17 | 1 | ||||
| 9 | 1 | 4 | 38 | 204 | 333 | 122 | 23 | 4 | |||
| 10 | 6 | 43 | 171 | 360 | 144 | 26 | 4 | ||||
| 11 | 1 | 7 | 29 | 135 | 300 | 112 | 28 | 6 | 2 | ||
| 12 | 2 | 18 | 139 | 235 | 107 | 18 | 4 | ||||
| 13 | 1 | 13 | 154 | 347 | 136 | 27 | 3 | 1 | |||
| 14 | 2 | 27 | 40 | 32 | 9 | 3 | 2 | ||||
| 15 | 2 | 19 | 42 | 24 | 3 | 1 | 1 | ||||
| 16 | 3 | 13 | 31 | 18 | 4 | 1 | |||||
| 17 | 1 | 9 | 19 | 17 | 7 | 1 | |||||
| 18 | 4 | 16 | 6 | 3 | 1 | ||||||
| 19 | 1 | 7 | 2 | 1 | |||||||
| 20 | 1 | 2 | 4 | 1 | 1 | ||||||
| ≥21 | 5 | 1 | |||||||||
| Peso carcaça (kg) - Lucro médio por cabeça ($) | |||||||||||
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| ≤49 | 50 | 55,1 | 60,1 | 65,1 | 70,1 | 75,1 | 80,1 | 85,1 | ≥90,1 | ||
| Espessura da gordura dorsal | ≤6 | -130,67 | -44,99 | -67,20 | -8,39 | 13,35 | 34,85 | 36,10 | -14,88 | ||
| 7 | -53,83 | -6,73 | 12,81 | 29,36 | 39,44 | 14,79 | |||||
| 8 | -47,80 | -16,05 | 16,19 | 30,93 | 45,59 | 17,31 | 6,40 | ||||
| 9 | -105,80 | -23,20 | -8,64 | 21,15 | 33,99 | 47,45 | 18,08 | -6,07 | |||
| 10 | -50,89 | -2,13 | 23,02 | 37,15 | 48,75 | 37,22 | 9,50 | ||||
| 11 | -64,60 | -62,60 | 1,22 | 24,93 | 38,94 | 50,49 | 38,81 | -0,48 | -76,07 | ||
| 12 | -31,30 | -2,15 | 26,49 | 41,15 | 54,73 | 28,48 | -9,72 | ||||
| 13 | -96,96 | -39,97 | 23,28 | 42,10 | 56,69 | 2,48 | -24,76 | -88,53 | |||
| 14 | -34,34 | 20,11 | 40,46 | 44,30 | -1,99 | -7,81 | -100,44 | ||||
| 15 | -37,49 | -5,22 | 14,55 | 5,73 | -27,71 | -67,00 | -107,92 | ||||
| 16 | -43,18 | 2,65 | 15,50 | -0,45 | -26,39 | -48,81 | |||||
| 17 | -91,03 | -0,48 | 17,74 | 12,86 | -29,77 | -34,20 | |||||
| 18 | -32,75 | -19,47 | -14,83 | -31,40 | -81,98 | ||||||
| 19 | -28,14 | -4,20 | -9,88 | -66,90 | |||||||
| 20 | -26,75 | -40,25 | -19,99 | 17,77 | -19,31 | ||||||
| ≥21 | -16,74 | -34,88 | |||||||||
Para o elaborar:
São observados rapidamente:
Mesmo sem uma tabela de pagamentos formal de um matadouro, esta metodologia continua a ser válida porque o custo por quilo nunca é uniforme.
Uma vez construídos estes gráficos, a comercialização de precisão torna-se uma ferramenta prática para a tomada de decisões.
Os produtores ganham a capacidade de:
comercializar porcos com base no lucro, e não no peso, pois o ponto ideal de rentabilidade varia de acordo com as condições de mercado;
reduzir as penalizações para porcos com baixo rendimento;
identificar quando é que os porcos podem ser vendidos mais cedo para melhorar a rotação do lote;
identificar os pavilhões ou sistemas com crescimento lento e dispendioso;
dirigir intervenções para suínos com risco de não atingirem um peso e valor elevado.
Em síntese, a comercialização de precisão transforma a informação em rentabilidade, concentrando o máximo de quilos possível na zona de maior rendimento.
Na Parte 1, aprendemos que o que se obtém dos porcos depende do que se investe neles.
Na Parte 2, mostrámos que as ferramentas de precisão amplificam o valor deste investimento.
Na Parte 3, a comercialização de precisãõ une ambos os conceitos ao garantir que se obtenha toda a rentabilidade que tanto esforço custou em gerar.
Porque quando cada porco cresce de maneira diferente, cada quilo tem um valor diferente, e o produtor que reconhece esta realidade é quem consegue captar uma maior proporção do valor que já existe no seu sistema produtivo.
Pode aceder ao videocast gratuito "Produção suína de precisão: impulsionando a rentabilidade através da gestão da variabilidade" para aprofundar sobre as estratégias práticas para reduzir a variabilidade, melhorar o valor da carcaça e aumentar a rentabilidade geral da exploração.