Cultivar a liderança desde cedo: a chave para garantir que o futuro do setor suíno não nos escapa por entre os dedos

Claudia Milena Camacho Castellanos Mónica Vega González
22-Mai-2026 (hoje)

Quem trabalha na indústria suína sabe o quão desafiante pode ser manter este negócio ao longo do tempo.

Para além das exigências técnicas e económicas do setor, há uma preocupação crescente: quem dará continuidade a este trabalho quando já cá não estivermos?

Não estamos a falar apenas de sucessão familiar. Falamos de talento, dedicação e futuro. De como cultivar hoje a liderança que o setor vai precisar amanhã.

A preparação consciente, não forçada

Em vez de esperar que a próxima geração "apareça" algum dia, é altura de adoptar uma abordagem proactiva: formar, inspirar e acompanhar as crianças e os jovens desde tenra idade para que vejam este sector como uma oportunidade real de desenvolvimento profissional e pessoal.

Cultivar a liderança desde a infância não significa impô-la. A preparação consciente começa com a aceitação de que as crianças podem ou não querer dar continuidade ao legado familiar. É um processo construído com uma mente aberta, oferecendo-lhes formação e um ambiente emocional inspirador, mas sem pressão.

Isto passa por fomentar uma cultura familiar consistente com os valores da empresa: responsabilidade, empreendedorismo, transparência, curiosidade e serviço. Significa também estar preparado para que essa liderança venha de outras fontes. Por conseguinte, é crucial capacitar todas as crianças e, ao mesmo tempo, desenvolver estruturas abertas para os futuros líderes, sejam eles membros da família ou não.

Envolvê-los desde a infância

Mesmo com apenas 8 ou 10 anos, as crianças podem começar a conectar-se com a empresa. Acompanhar os pais ao trabalho, participar em eventos ou receber incentivos por conquistas escolares que incluam aprender mais sobre o negócio são formas simbólicas, mas eficazes, de fomentar um sentimento de pertença.

Podem ser convidadas a observar, partilhar as suas opiniões e participar: “O que faria se…?” Ouça atentamente as suas respostas e valorize as suas perspetivas. Muitas vezes, as respostas oferecem um ponto de vista novo, criativo e surpreendentemente perspicaz. Quando os adultos valorizam as suas ideias, as crianças desenvolvem confiança e uma ligação com esse ambiente.

É também fundamental ensiná-las desde cedo sobre esforço, trabalho em equipa, finanças básicas e tomada de decisões. O objetivo é oferecer experiências que as preparem emocional e cognitivamente para o futuro.

Comprender a sua etapa de desenvolvimento

Durante a infância, predomina a curiosidade natural. Esta é uma oportunidade de ouro para estimular a iniciativa e o pensamento crítico. Transformar as suas perguntas num projeto de investigação — por exemplo, por que os porcos têm rabos enrolados — não só nutre as suas mentes como também as conecta emocionalmente ao seu ambiente.

As crianças aprendem mais com o que observam do que com o que lhes é dito. Se crescerem a ver adultos exaustos ou emocionalmente distantes, é isso que vão associar ao mundo profissional. Por isso, criar experiências agradáveis ​​onde se divirtam, se sintam úteis e possam contribuir é essencial. A diversão é a chave mais poderosa para uma criança: aquilo de que gostam, querem repetir, e isso associam a um lugar onde querem estar.

Desenvolva a liderança de forma natural

A liderança é uma competência que se cultiva. Permitir que as crianças tomem decisões sobre assuntos do dia-a-dia já lança as sementes da liderança. À medida que crescem, podem assumir responsabilidades mais específicas.

No contexto da criação de suínos, por exemplo, participar nos cuidados aos animais permite-lhes desenvolver competências de organização, capacidade de resolução de problemas, responsabilidade e gestão do tempo. Estas experiências, quando acompanhadas de paciência e orientação, moldam-nas a partir do interior.

Para elas, o dinheiro não é a motivação inicial. A prioridade deve ser a ligação emocional e o prazer. Se não houver prazer ou ligação emocional, dificilmente desejarão liderar este negócio no futuro.

Preparar a empresa e o ambiente à volta

Não basta apenas preparar os filhos. A empresa precisa de se tornar um lugar onde eles queiram estar. Isto significa ter propósito, visão e um caminho claro para o futuro. Requer um ambiente emocionalmente saudável e rentável que ofereça oportunidades de realização profissional e pessoal.

É essencial que adquiram experiência noutras empresas: a receber ordens, a cumprir prazos e a resolver conflitos. Dá-lhes perspetiva e fortalece o seu sentido de identidade. Desta forma, poderão valorizar mais a empresa familiar caso decidam regressar.

Levá-los a feiras e eventos do setor ou a programas de formação especializada não é uma despesa; é um investimento. Isto alarga os seus horizontes e permite-lhes descobrir novas possibilidades.

Ter o apoio de mentores ou psicólogos faz toda a diferença. Isto equipa-os com as ferramentas necessárias para tomar decisões mais independentes e maduras no futuro.

O papel do adulto: acompanhar e deixar ir

Os adultos precisam de realizar um profundo trabalho pessoal: preparar-se para abdicar do controlo, dos holofotes e do poder de decisão. Este processo não é apenas estrutural, mas também emocional e está relacionado com a identidade. Requer examinar as expectativas pessoais, os medos e o orgulho.

Cultivar a liderança desde cedo não garante a continuidade, mas aumenta a probabilidade de as crianças, se optarem por permanecer na família, o fazerem com propósito, paixão e preparação.

A tarefa não é agarrar-se ao controlo, mas semear com inteligência e guiar com amor para deixar um impacto duradouro.

Uma tarefa de todos

Cultivar a liderança desde a infância não é apenas uma responsabilidade dos proprietários de empresas familiares. É da responsabilidade de toda a indústria suína.

Se queremos um futuro promissor para o setor, precisamos de investir hoje nos talentos que ainda estão em desenvolvimento.

Talvez aquela criança curiosa que hoje pergunta porque é que os leitões têm rabos enrolados seja a próxima a revolucionar a produção, a genética ou o marketing da carne de porco. Mas isso só será possível se houver hoje adultos conscientes, dispostos a criar oportunidades, a ouvir e a ensinar.