Microbiota, disbiose e uso de antimicrobianos em suínos

Luísa Zanolli Moreno
13-Abr-2026 (ontem)

A produção suína moderna enfrenta desafios cada vez mais complexos para manter o equilíbrio entre saúde e produtividade. Mesmo com intervenções precisas direcionadas para agentes patogénicos específicos, é comum observar lotes com baixo desempenho ou surtos persistentes de doenças. Isto leva-nos a perguntar: estamos a avaliar todos os fatores que influenciam a saúde animal?

Entre os elementos frequentemente negligenciados está a microbiota (um verdadeiro “órgão invisível”), que desempenha um papel central na saúde, imunidade e produtividade dos suínos. Compreender a sua dinâmica e como esta se pode desequilibrar é cada vez mais fundamental para o sucesso dos programas de saúde e nutrição (Wang et al., 2025).

Microbiota vs Microbioma

A microbiota refere-se ao conjunto de microrganismos que habitam um local específico do organismo, como o intestino, o trato respiratório ou a pele. Estes microrganismos interagem entre si e com o hospedeiro, formando um sistema altamente dinâmico.

Com o avanço das técnicas de sequenciação de nova geração (NGS), os investigadores começaram a estudar não só quem são estes microrganismos, mas também o que fazem. Surge então o conceito de microbioma, que abarca o conjunto de genomas microbianos e as suas funcionalidades metabólicas (Berg et al., 2020), o que permite compreender o impacto destas comunidades na fisiologia e na resposta imunitária do animal.

A microbiota não é estática: adapta-se e evolui

A colonização microbiana dos suínos inicia-se ainda durante a vida intrauterina, intensificando-se ao nascimento e durante os primeiros contactos com o útero. A composição inicial da microbiota influencia diretamente o desenvolvimento imunitário, a eficiência alimentar e a resistência a infeções ao longo da vida (Liu et al., 2023; Monteiro et al., 2022).

Contudo, esta microbiota não é estática. Adapta-se continuamente em resposta a fatores fisiológicos, nutricionais, ambientais e de maneio, e é precisamente esta plasticidade que determina a capacidade do animal em manter o equilíbrio entre a saúde e a doença (Luo et al., 2022).

Eubiose e disbiose: dois lados do mesmo ecossistema

O estado de eubiose representa o equilíbrio funcional da microbiota, em que os microrganismos benéficos coexistem em harmonia, atuando na proteção do hospedeiro e na manutenção da homeostasia do organismo.

Por outro lado, a disbiose caracteriza-se pela perda deste equilíbrio, quer seja devido à redução da diversidade microbiana, devido a alterações na abundância relativa, ou à perda da sua funcionalidade protetora.

A disbiose é geralmente desencadeada após uma perturbação ambiental ou fisiológica resultante de fatores stressantes, tais como:

Para além da perda de diversidade microbiana, a disbiose envolve uma redução da funcionalidade protetora da microbiota, criando condições favoráveis ​​à proliferação de agentes patogénicos oportunistas e de processos inflamatórios crónicos.

Assim, os animais com disbiose tornam-se mais vulneráveis ​​às infeções, apresentam uma produtividade reduzida e uma maior incidência de doenças entéricas e sistémicas (Tang et al., 2025). Manter a eubiose é, por isso, preservar uma das principais barreiras naturais contra as doenças.

Como é que a microbiota protege contra as doenças?

Uma microbiota saudável atua como uma barreira de defesa natural através de diferentes mecanismos:

Na prática, que fatores afetam a microbiota?

Diversos fatores interferem na composição e estabilidade da microbiota dos suínos. Entre eles, a qualidade da dieta, o maneio e o ambiente influenciam diretamente o equilíbrio microbiano (Tang et al., 2025).

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Nutrição
Dietas com excesso de proteína não digerida, baixa fermentabilidade da fibra ou transições abruptas durante o desmame podem provocar fermentação proteolítica e a produção de metabolitos tóxicos. O uso inadequado de aditivos alimentares também compromete a eubiose.

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Maneio e ambiente
O stress térmico, o stress social e o stress de manuseamento aumentam os níveis de cortisol e perturbam a imunomodulação e o equilíbrio microbiano. Instalações mal higienizadas e a má qualidade da água contribuem para a sobrecarga de agentes patogénicos.
<p>3</p>
Factores fisiológicos e genéticos
A idade, a genética e a presença de infeções imunossupressoras (virais ou bacterianas) modulam diretamente a composição microbiana e a suscetibilidade a doenças.

Antimicrobianos: impactos na microbiota e na disbiose

Entre os fatores mais significativos na indução da disbiose está o uso inadequado de antimicrobianos (AMs). Embora sejam essenciais para o tratamento de infeções, a sua utilização contínua e indiscriminada tem profundas implicações negativas para a saúde animal e para a sustentabilidade da produção (Upadhaya e Kim, 2022).

O mecanismo de ação dos antimicrobianos, que visa eliminar os agentes patogénicos, acaba também por afetar diretamente a microbiota e o seu equilíbrio.

Redução da diversidade e perda de função

Los antimicrobianos, especialmente los de amplio espectro, reducen drásticamente la diversidad y el equilibrio microbiano, comprometiendo la función de la microbiota.

Seleção de resistência

O uso inadequado de antimicrobianos seleciona as bactérias resistentes, eliminando as sensíveis e permitindo que as bactérias resistentes se multipliquem e causem infeções ou surtos após o tratamento.

Compremetimento da resiliência

Após o tratamento antimicrobiano, a microbiota intestinal perde diversidade e função, diminuindo a sua capacidade de recuperação. Esta resiliência reduzida aumenta a suscetibilidade a desequilíbrios, infeções recorrentes e recidivas a longo prazo.

Adaptado de Seekatz AM et al, 2022

O desafio da restrição dos antimicrobianos e as suas alternativas

O panorama global é caracterizado por inúmeras iniciativas que impõem restrições crescentes à utilização de antimicrobianos na produção animal, impulsionadas pelas preocupações com a resistência antimicrobiana (RAM), um dos maiores desafios de saúde pública a nível mundial.

A restrição ao uso de antimicrobianos não deve ser interpretada como um vazio terapêutico ou uma ausência de alternativas, mas sim como uma necessidade de novas estratégias de gestão sanitária. A abordagem do médico veterinário deve mudar da ação curativa para a prevenção proativa, dando prioridade a estratégias de modulação da microbiota, promoção da eubiose e fortalecimento da resiliência como pilares para a saúde e produção animal sustentáveis.

Atualmente, a indústria já oferece uma gama de substitutos seguros e eficazes, incluindo:

Probióticos

Microorganismos benéficos (Lactobacillus, Bacillus) que competem com agentes patogénicos, reforçam a imunidade e equilibram a microbiota, especialmente úteis no desmame.

Prebióticos

Fibras funcionais (FOS, MOS, inulina) que estimulam o crescimento de bactérias benéficas e aumentam a produção de AGCC, essenciais para a integridade intestinal.

Ácidos orgânicos

Reduzem o pH gástrico e intestinal, inibindo E. coli e Salmonella, além de melhorar a digestão e o controlo entérico.

Péptidos antimicrobianos (PAMs)

Moléculas com ação direta sobre os agentes patogénicos e baixo impacto na microbiota comensal, com potencial imunomodulador.

Fitoquímicos e extratos vegetais

Compostos naturais com ação anti-inflamatória, antioxidante e antimicrobiana seletiva que promovem a saúde intestinal e o desempenho produtivo.

Conclusões

A relação entre microbiota, disbiose e doenças é multifatorial e requer uma abordagem integrada que englobe a nutrição, a gestão, o ambiente e o uso racional de antimicrobianos. Incorporar o conceito de saúde microbiana nas estratégias de produção é um passo essencial para um setor suíno mais sustentável e produtivo, alinhado com os princípios da Uma Só Saúde.