Impacto do acordo UE-MERCOSUL no sector suíno: Perspectivas e desafios

Carlos Andrés Castro Amàlia Cordero
25-Jul-2025 (há 8 meses 13 dias)

Um dos principais objectivos do acordo é eliminar quase 90% das tarifas entre as duas partes, de forma progressiva ao longo de um período de 10 anos, com algumas excepções que se estenderão por até 15 anos. Vale a pena esclarecer que, apesar de já estar assinado, o acordo ainda está sujeito ao processo de ratificação por parte das instituições europeias e dos parlamentos nacionais dos Estados-Membros, pelo que este processo poderá prolongar-se por vários meses e até anos.

O acordo terá efeitos importantes sobre a carne de porco e, como era de se esperar, gerou opiniões divididas entre os representantes do setor suinícola de ambas as regiões, pois enquanto alguns o veem como uma oportunidade, outros consideram-no um risco devido aos desequilíbrios normativos e económicos.

Contexto actual do comércio internacional de carne de porco para as partes

Antes de analisarmos os efeitos do acordo no nosso sector, é necessário contextualizar a actualidade do comércio de carne de porco em ambos os blocos. Para isso, apresentamos a seguir uma breve análise sobre os volumes e o fluxo do comércio internacional para as duas partes.

União Europeia

A UE destaca-se por ser o principal exportador mundial de carne de porco, seguida pelos E.U.A. e pelo Brasil, com um total de 4,35 milhões de toneladas de produtos suínos exportados em 2024. Nesse sentido, os seus principais destinos no último ano foram a China e o Reino Unido, enquanto o MERCOSUL representou apenas 0,17% do total geral (Gráfico 1).

Gráfico 1. Principales destinos de las exportaciones porcinas de la UE en 2024, incluidos los datos para MERCOSUR.  

Fuente: 333 a partir de datos de Eurostat

No que diz respeito às exportações para os países do MERCOSUL, os principais destinos foram o Uruguai (3453 t, 47 % do total exportado para o MERCOSUL) e o Brasil (2979 t, 41 %), e, em menor escala, a Argentina (861 t, 12 %) e o Paraguai (17 t, 0,2 %). Os produtos que a UE fornece ao MERCOSUL são geralmente de valor acrescentado, como os salgados e fumados, embora também haja remessas importantes de gordura de porco (Gráfico 2).

Gráfico 2: Exportaciones de Productos y Subproductos de cerdo de la Unión Europea a MERCOSUR en 2024, cifras en toneladas.  

Fuente: 333 a partir de datos de Eurostat

No que diz respeito às importações de suínos, trata-se de um valor residual, uma vez que, em 2024, a UE importou 160 947 t, na sua maioria provenientes do Reino Unido (67 %). Do total, as provenientes dos países que compõem o MERCOSUL representaram apenas 25 t, o equivalente a 0,02 % do total das importações de suínos da UE. Destaca-se o peso do Brasil, que, do total das exportações do MERCOSUL para a UE, representou 64 %, com 16 t.

MERCOSUL

Embora o MERCOSUL se refira a um bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, é importante mencionar as diferenças marcantes entre um país e outro, uma vez que as vantagens e desvantagens do acordo podem impactar de forma diferente cada país membro. A seguir, apresentamos uma breve caracterização do comércio internacional de carne de porco para cada país:

Gráfico 3: Comercio internacional de carne de cerdo en MERCOSUR para 2024 y participación de los países miembros.  

Fuente: 333 a partir de datos de Comexstat, SAGyP, OPYPA y ACCP

Desafios e oportunidades do acordo, percepção das partes

O potencial desta negociação para o sector suinícola é enorme. Além de transformar e aumentar significativamente o comércio suinícola entre ambas as regiões, tem a capacidade de gerar intercâmbios importantes em temas como transferência de tecnologia, bem-estar animal e sustentabilidade, especialmente da UE para o MERCOSUL, atraindo também grandes investimentos.

Por outro lado, a UE poderia beneficiar-se ao aumentar a sua quota de mercado na América Latina e aceder a matérias-primas a um custo relativamente baixo, uma vez que o Brasil e a Argentina são dois dos principais produtores mundiais de milho e soja.

Vamos agora analisar um pouco mais a fundo os possíveis efeitos para as partes.

União Europeia

Dentro da UE, os efeitos do acordo serão diferentes para cada Estado-Membro, uma vez que dependerão de factores como a estrutura da sua produção, a sua orientação para a exportação e a sua dependência de matérias-primas.

De forma global, a abertura deste novo mercado pode não representar uma mudança significativa em termos de volume exportado, uma vez que, como mencionado anteriormente, o MERCOSUL conta com uma produção suína robusta e um comércio intrarregional consolidado. Onde pode haver oportunidades de crescimento é na exportação de produtos de alto valor acrescentado. A carne processada, os enchidos curados e outros derivados do porco europeus são reconhecidos globalmente pela sua qualidade e tradição. Até agora, as exportações desses produtos para a MERCOSUL têm sido limitadas devido às altas tarifas e barreiras comerciais. Com o acordo, a redução ou eliminação dessas tarifas poderia facilitar o acesso aos consumidores da MERCOSUL, especialmente em mercados premium e sectores de alto poder aquisitivo, que buscam produtos diferenciados em sabor, qualidade e certificações sanitárias.

Não obstante, esta abertura também acarreta riscos para os produtores europeus. O MERCOSUL é uma região altamente competitiva em termos de custos de produção, devido a factores como acesso a matérias-primas mais baratas (principalmente soja e milho para ração animal), menos regulamentações ambientais e de bem-estar animal e menor custo de mão de obra. Isso gera preocupações no sector suinícola europeu, que já opera sob padrões regulatórios rigorosos e enfrenta desafios de rentabilidade.

Nesse sentido, embora o acordo mantenha intactos os elevados padrões sanitários, de bem-estar e de sustentabilidade da UE, ele poderia gerar uma concorrência desigual entre os produtores europeus e os do MERCOSUL devido às diferenças estruturais nos custos de produção e nas regulamentações internas. A aplicação de cláusulas de salvaguarda, o reforço dos controlos de conformidade com as normas sanitárias e de sustentabilidade, bem como a implementação de certificações alinhadas com os padrões europeus, serão aspectos fundamentais para evitar um impacto negativo na suinicultura da UE.

Outro aspecto a considerar é o fornecimento de matérias-primas. A soja, principal produto agrícola que a UE importa do MERCOSUL, juntamente com os seus derivados (bagaço e óleo de soja), já entra no mercado europeu com tarifas nulas ou muito baixas no caso dos derivados. No entanto, dada a elevada dependência da UE destas importações, o acordo poderia beneficiar a pecuária europeia, garantindo um abastecimento mais estável para a sua utilização na produção de alimentos.

MERCOSUL

Embora o MERCOSUL funcione teoricamente como um bloco económico, ao analisar as particularidades do mercado suíno de cada país membro, encontramos características muito diferentes entre eles. Desde o grande volume e variedade de destinos de exportação do Brasil, o grande potencial e estrutura da Argentina, a vocação exportadora do Paraguai, até a dependência das importações para satisfazer a sua procura por parte do Uruguai. Neste sentido, os efeitos e benefícios do tratado com a UE serão muito diferentes para cada país.

Além disso, o comércio intrarregional no MERCOSUL é muito dinâmico no que diz respeito à suinicultura, como vimos anteriormente. Esta característica poderia limitar, em certa medida, a entrada de carne de porco da UE, uma vez que o MERCOSUL conta com uma oferta intrarregional robusta e competitiva, bem como uma procura satisfeita. No entanto, a UE poderia aumentar as suas exportações de produtos processados, como os salgados e fumados, cujo acesso é actualmente limitado devido aos altos custos, restringindo o seu consumo a um grupo selecto de consumidores. A entrada desses produtos isentos de tarifas contribuiria para diversificar a oferta gastronómica numa cultura que, embora muito tradicional, busca novas opções alimentares.

Por outro lado, as oportunidades do MERCOSUL para entrar com carne e subprodutos suínos na UE poderiam estimular a expansão da suinicultura e o crescimento da produção local destinada exclusivamente a atender esse novo parceiro comercial. No entanto, apesar de, em teoria, o produto do MERCOSUL ser mais competitivo tendo em conta a relação preço-custo, existem barreiras não tarifárias que limitariam em grande medida o acesso a este mercado. Entre essas barreiras encontram-se as regulamentações rigorosas em questões cruciais como bem-estar animal, sustentabilidade, rotulagem e biossegurança. Actualmente, mesmo os grandes produtores dos países do MERCOSUL estão, até agora, a dar os primeiros passos para se adaptar ao cumprimento dessas normas.

Diante disso, surge a pergunta: basta que os produtores do MERCOSUL adaptem suas explorações e produções suinícolas às altas exigências da União Europeia, motivados principalmente pelo acesso ao seu mercado? Ou são necessários acordos e regulamentações de ordem jurídica e de nível nacional para cumprir as normas e harmonizar as exigências para ambas as partes? Esta é uma grande questão que se coloca do ponto de vista do desequilíbrio em que nos encontraríamos, tendo em conta as exigências rigorosas para os produtores europeus, em comparação com a regulamentação em vigor nos países do MERCOSUL.

Uma das possíveis consequências futuras da implementação deste acordo no MERCOSUL poderia ser a transformação do sector suinícola na região, impulsionada pelas regulamentações avançadas da União Europeia. Essas regulamentações poderiam contribuir indirectamente para remodelar o modelo de produção suinícola, bem como para a adopção de inovações tecnológicas, melhorias genéticas, práticas sustentáveis e outros aspectos em que a UE é superior e em que os países do MERCOSUL ainda têm muito a aprender. Graças a este acordo, poderiam ser desenvolvidos projectos conjuntos que permitissem a transferência de conhecimentos, resultando no desenvolvimento do sector.

Tabela 1. Paralelo dos desafios, riscos, oportunidades do comércio suíno entre a União Europeia e a MERCOSUL, derivados do acordo

UNIÃO EUROPEIA

MERCOSUL

OPORTUNIDADES
  • Diversificação de mercados: Possibilidade de exportar carne de porco para o Mercosul, embora a forte produção local no Brasil possa limitar essa opção.
  • Valor acrescentado: Exportação de produtos curados e de maior valor, onde a UE tem vantagem competitiva.
  • Acesso ao mercado europeu: O Brasil e outros países poderiam ser beneficiados se cumprissem as normas sanitárias e de bem-estar animal da UE.
  • Fortalecimento do sector: A necessidade de cumprir as exigências europeias poderá impulsionar a modernização e a especialização da produção suinícola.
  • Diversificação de exportações: Menos dependência de mercados como a China.
  • Atracção de investimento e tecnologia: As empresas europeias poderiam investir na região, transferindo conhecimentos e melhorando a competitividade.
DESAFIOS E RISCOS
  • Competição desigual: Os produtores europeus têm custos mais elevados devido às rigorosas regulamentações sobre bem-estar animal, uso de antibióticos e sustentabilidade.
  • Possível perda de competitividade: A redução das tarifas favorece os produtores do Mercosul com custos de produção mais baixos.
  • Barreiras sanitárias e regulamentares: Apesar do acordo, a UE manterá exigências em matéria de rastreabilidade, rotulagem e controlos sanitários, o que poderá dificultar as exportações.
  • Desafios no mercado local: Um aumento das importações europeias poderia pressionar os preços internos e afectar os pequenos e médios produtores.
  • Exigências de sustentabilidade: Os consumidores europeus valorizam cada vez mais a sustentabilidade, o que pode condicionar a aceitação dos produtos do Mercosul, caso estes não cumpram esses padrões
  • Adaptação de explorações: Muitas produções no Mercosul exigirão investimentos significativos para se adequarem às regulamentações europeias.
CENÁRIOS FUTUROS
  • Implementação gradual: Espera-se que os efeitos do acordo sejam notórios em 5 a 10 anos, à medida que as regulamentações e os mercados se forem ajustando.
  • Impacto na produção suína global: A tendência para padrões mais exigentes em matéria de bem-estar animal e sustentabilidade marcará a evolução do sector, embora a velocidade de adaptação varie consoante a região.
  • Possível crise na produção suína latino-americana: Se a UE impuser as suas exigências sem prazos adequados, alguns produtores do Mercosul poderão enfrentar dificuldades para as cumprir.

Fonte: 333