Melhorar a qualidade do colostro através da nutrição: investigação e prática

Diego Alberto Lescano
13-Jan-2025 (há 1 anos 2 meses 25 dias)

A suinicultura mundial é uma atividade dinâmica e em constante evolução. Um dos aspectos mais marcantes deste progresso é o excelente trabalho desenvolvido pelas casas de genética, que conseguiram aumentar significativamente a produtividade das porcas, como se comprova pelo aumento do número de leitões nascidos e, consequentemente, do número de leitões desmamados.

O desafio do colostro suíno

Estes desenvolvimentos também colocam novos desafios, especialmente em relação ao superalimento mais importante na exploração: o colostro suíno. Estudos demonstraram que a quantidade de colostro produzida por uma porca é limitada, variando de 3 a 6 quilos, e não pode ser significativamente modificada.
Com o aumento no número de leitões nascidos por parto, a competição entre eles para aceder a uma quantidade suficiente de colostro intensifica-se, pondo em risco a sua saúde, sobrevivência e desenvolvimento futuro.

A importância de ferramentas de monitorização práticas e económicas

Neste contexto, identificámos a necessidade de avaliar se a qualidade do colostro pode ser melhorada através de estratégias nutricionais específicas. Para este fim, era crucial desenvolver e validar técnicas práticas e de baixo custo para medir a qualidade do colostro em explorações comerciais.
Uma das técnicas utilizadas foi a utilização de refractómetros digitais que, através dos graus Brix, permitem uma medição indirecta da concentração de imunoglobulinas. Este método é rápido, económico, prático e eficiente, fornecendo resultados em menos de 40 segundos.
Foto 1. Uso de refractómetros digitais para a medição indirecta da concentração de imunoglobulinas

Além disso, era essencial estabelecer valores de referência para diferenciar o colostro de boa qualidade do colostro de má qualidade. Com base nos nossos próprios estudos e nos de Hasan et al. (2016), foi determinado que um colostro adequado deve conter pelo menos 50 mg/ml de IgG na sua fase inicial (dentro de duas horas após o parto). Este autor também correlacionou os valores de ELISA com os valores do refratómetro digital e propôs intervalos baseados nas leituras de Brix para classificar a qualidade do colostro.
Tabela 1.

Teor de imunoglobulina G (IgG) no colostro de acordo com dois métodos de avaliação e categorias de estimativa.

Brix, % Elisa IgG* SEM IgG - categorias
< 20 14,50 1,80 Pobre
20 a 24 43,80 2,30 Límite
25 a 29 50,70 2,10 Adecuado
> 30 78,60 8,40 Muy bueno

*Amostras recolhidas de 0 a 3 horas pós-parto, mg/ml.
Adaptado de Hasan et al., 2016.

Investigação aplicada nas explorações agrícolas: melhorar o colostro através da nutrição

Foram realizados dois ensaios em colaboração com explorações comerciais na Argentina (BLD + Pigs e Cerdos San Juan) durante Dezembro de 2023 e Janeiro de 2024, utilizando porcas primíparas e porcas multíparas.

Dois grupos experimentais foram estabelecidos em cada exploração:

(*) As dietas padrão eram baseadas em milho, farinha de soja, aminoácidos e pré-misturas de vitaminas e minerais.

Simultaneamente, em ambas as explorações, observámos que era possível melhorar significativamente (dados ainda não publicados por Lescano et al., 2024) a qualidade do colostro através desta nutrição estratégica, como detalhado nos gráficos abaixo.

Tabela 2. Dados de valores médios, P-valor, CV% e diferenças (%) de qualidade de colostro.

Explorações Unidades Grupo controlo Grupo teste P-valor CV% Diferenças
Exploração BLD + pigs Brix, % 25,64 28,23 0,0387 15,8 10,10%
Exploração Cerdos San Juan Brix, % 24,01 26,87 0,0300 12,6 11,91%

TR7 e TR13- Dados de relatórios de I+D+I de KPIs Consulting.

Gr&aacute;fico 1. Qualidade do colostro em função da estratégia nutricional

A estabilidade do colostro ao longo do tempo

Tendo demonstrado a viabilidade de melhorar a qualidade do colostro através de estratégias nutricionais e numa tentativa de dar aplicação prática à investigação efectuada, surgiu uma nova questão: quanto tempo é que o colostro mantém uma qualidade adequada após o parto? Para responder a esta questão, recolhemos amostras de colostro a cada duas horas após o parto em várias explorações comerciais, tendo em conta as variações genéticas, nutricionais, de gestão e de alimentação. Determinamos que, após 240 minutos, o teor de Brix medido com o refratômetro digital caiu abaixo de 24, indicando qualidade insuficiente de acordo com os parâmetros estabelecidos por Hasan (2016).

Por outro lado, ao analisar dados de explorações comerciais, observámos que mais de 40% dos partos de porcas de elevada prolificidade duram mais de 240 minutos. Isto significa que os leitões nascidos após este período têm acesso a colostro de qualidade insuficiente, o que coloca em risco a sua sobrevivência, saúde, estabilidade sanitária na exploração e rendimento produtivo.

Considerações finais

A qualidade do colostro é um fator determinante na produção de suínos, especialmente face a desafios como o aumento do número de ninhadas, a desmedicalização, a proibição do óxido de zinco, etc. A implementação de instrumentos práticos de medição e o desenvolvimento de estratégias nutricionais específicas representam avanços significativos para enfrentar estes desafios. Continuar a investigar e a aperfeiçoar estas estratégias será fundamental para maximizar o rendimento, a qualidade e a utilização do colostro, a fim de garantir a sustentabilidade da produção de suínos.

Agradecimentos pela colaboração no desenvolvimento da informação apresentada: