Importância da patologia no diagnóstico dos suínos

Joaquim Segalés
10-Jan-2025 (há 1 anos 2 meses 29 dias)

Para combater um determinado problema clínico em qualquer espécie animal, é necessário estabelecer um diagnóstico exacto da doença. Em todos os casos, o exame clínico do(s) paciente(s) é a pedra angular para um diagnóstico mais aprofundado.

Os surtos súbitos de doenças representam grandes desafios, tanto para os produtores como para os veterinários, que devem identificar e actuar sobre as causas do problema para restabelecer a normalidade. Nestas circunstâncias, o veterinário de suínos torna-se um investigador, uma vez que tem de avaliar múltiplos elementos que podem contribuir para a causa da doença num cenário complexo que envolve aspectos relacionados com o ambiente, a nutrição, a biossegurança, a epidemiologia, a presença de múltiplos agentes patogénicos e a interacção homem-suíno.

As doenças que afectam um grupo de suínos na exploração são normalmente de origem infecciosa ou nutricional (toxicidade ou deficiência). A primeira abordagem de diagnóstico inclui sempre uma investigação clínica e epidemiológica exaustiva por parte do veterinário. Se o resultado clínico resultar em mortalidade ou em suínos gravemente afectados, a necropsia de alguns dos suínos (os considerados representativos da doença) deve fornecer algumas pistas sobre a causa ou, pelo menos, permitir que certas etiologias sejam excluídas.

A necropsia deve ser efectuada de forma ordenada, sistemática e exaustiva.

A presença de lesões pode não fornecer causas específicas na maioria dos casos, mas pode fornecer orientação ou reduzir a lista de diagnósticos diferenciais.

A título de exemplo, os padrões macroscópicos da pneumonia oferecem uma série de possibilidades etiológicas, embora em vários casos seja necessário ir mais longe e utilizar testes (laboratoriais) adicionais.
<p><strong>Pm:</strong> <em>Pasteurella multocida</em>; <strong>Bb:</strong> <em>Bordetella bronchiseptica</em>; <strong>Mhyo:</strong> <em>Mycoplasma hyopneumoniae.</em><br />
*Mhyo está frequentemente envolvida na broncopneumonia supurativa como agente patogénico inicial (causando primeiro a pneumonia bronco-intersticial).</p>

<p><strong>Mhyo:</strong> <em>Mycoplasma hyopneumoniae</em></p>

<p><strong>PRRSV:</strong>&nbsp;virus do s&iacute;ndrome respiratório e reprodutivo suíno; <strong>PCV2:</strong>&nbsp;circovirus porcino 2; <strong>PRCV:</strong>&nbsp;coronavirus respiratorio suíno;&nbsp;<strong>PCV3:</strong>&nbsp;circovirus suíno 3.<br />
PRCV, PCV3 e outros virus, como os adenovirus, o vírus da doença de Aujeszky e outros, causam frequentemente pneumonia intersticial ligeira.</p>

<p><strong>App:</strong> <em>Actinobacillus pleuropneumoniae</em>; <strong>As:</strong> <em>Actinobacillus suis</em>;&nbsp;<strong>Pm:</strong> <em>Pasteurella multocida</em></p>

Análise laboratorial: nem tudo o que reluz é ouro!

Diferentes abordagens analíticas ajudam a identificar possíveis agentes patogénicos (vírus, bactérias, parasitas, fungos) ou toxinas envolvidos num problema clínico. Os mais utilizados actualmente são os testes de biologia molecular, como a PCR (reacção em cadeia da polimerase) e as suas variantes (qualitativa, quantitativa, para ADN ou ARN). A grande vantagem desta técnica é a sua sensibilidade (capacidade de detectar quantidades ínfimas do genoma do agente patogénico ou do gene que codifica uma toxina), mas também tem um inconveniente, uma vez que a mera detecção de um agente patogénico ou de uma toxina num contexto endémico não é suficiente para estabelecer um diagnóstico etiológico inequívoco.

Outras técnicas laboratoriais, como o isolamento bacteriano (incluindo o antibiograma), são muito úteis, uma vez que permitem estabelecer um diagnóstico etiológico e oferecem um possível tratamento bem sucedido. Por outro lado, as técnicas de detecção de anticorpos são excelentes instrumentos de monitorização, mas oferecem possibilidades de diagnóstico limitadas, uma vez que a presença de anticorpos depende do estado da vacinação e/ou da infecção, bem como da imunidade materna.

Histopatologia: uma ferramenta de valor acrescentado para confirmar a investigação diagnóstica

Para além dos testes laboratoriais especificamente orientados para a determinação de agentes patogénicos ou toxinas, a histopatologia pode fornecer um quadro sólido para estabelecer a causa real de um problema clínico.

A detecção de um determinado agente patogénico ou toxina deve ser consistente com as observações clínicas e epidemiológicas e com as lesões macroscópicas e a análise histopatológica pode confirmar definitivamente esta consistência.

Um bom exemplo da utilidade da avaliação microscópica seria a detecção de um vírus por PCR num problema respiratório em que as lesões histológicas típicas causadas por este agente não estão presentes no pulmão (partindo do princípio de que o suíno ou grupo de suínos são representativos da doença observada). Este cenário deveria levar a uma recapitulação do diagnóstico suspeito e a uma investigação mais aprofundada.

O veterinário de suínos deve considerar a histopatologia como um instrumento muito valioso, pelo menos tão importante como a PCR, o isolamento bacteriano ou a detecção de anticorpos. A análise microscópica permite diagnósticos morfológicos que reforçam ou contradizem o que foi estabelecido por achados clínicos, epidemiológicos ou laboratoriais, ajudando assim a estabelecer a provável etiopatogénese do problema clínico. Esta informação geral é importante, pois é uma espécie de preditor de como as medidas de controlo e prevenção implementadas para combater a doença podem ou não funcionar.

A recolha de amostras para histopatologia (e outros testes laboratoriais) é relativamente fácil, mas requer algum conhecimento da patogénese da doença, bem como algumas competências técnicas:

<p>Figura 1. A. Amostragem geral recomendada num pulmão, recolhendo amostras que incluam áreas normais e afectadas. B. No caso de lesões focais, devem também ser observadas as áreas normais e afectadas, e não apenas as lesões.</p>

É importante referir que, para além da análise histopatológica simples (baseada na coloração com hematoxilina-eosina, Figura 2), outros exames patológicos podem ajudar na procura de agentes etiológicos.

<p>Figura 2. Coloração de hematoxilina-eosina de um pulmão normal (<strong>A</strong>) e afectado (<strong>B</strong>). O pulmão B é afectado por uma pleuropneumonite fibrino-necrotizante causada por <em>Actinobacillus pleuropneumoniae</em>.</p>

As mais utilizadas são a imunohistoquímica (Figura 3) e a hibridização in situ (Figura 4), que permitem a detecção de agentes patogénicos no local de acção, apoiando o seu papel no contexto clínico e patológico. Além disso, existem outras técnicas (colorações histoquímicas), que não são suficientes para estabelecer uma etiologia específica, mas podem fornecer pistas sobre a causa (por exemplo, coloração de Groccot para fungos ou coloração de Gram para bactérias gram-positivas ou gram-negativas).

<p>Figura 3. Inmunohistoqu&iacute;mica para detectar o vírus do s&iacute;ndrome respiratório e reprodutivo suíno (PRRSV) (A) e o vírus da gripe suína (B). A presença do antigénio vírico (corante castanho) é encontrada nas áreas afectadas.</p>

<p>Figura 4. Hibridação <em> in situ</em> para detectar circovirus suíno 2 (PCV2) num pulmão afectado de pneumonia intersticial.</p>

Em resumo, o veterinário de suínos, para além das suas próprias investigações clínicas, epidemiológicas e de lesões macroscópicas, tem à sua disposição uma variedade de possibilidades analíticas, nas quais a histopatologia pode desempenhar um papel fundamental. Uma comunicação eficaz entre clínicos e patologistas melhora a capacidade de diagnóstico, conduzindo a uma resolução mais rápida e mais eficiente dos problemas clínicos.