Sector suíno espanhol: apostar na eficiência e sustentabilidade

Emilio Magallón Botaya
04-Nov-2020 (há 5 anos 5 meses 4 dias)

O sector suíno espanhol é um sector de sucesso, o que resultou num aumento sustentado da produção nos últimos anos a uma razão de mais de 1.000.000 de cabeças por ano. Em 2019, foram abatidas mais de 53 milhões de cabeças.

Este crescimento é suportado pelo aumento das exportações, onde a Espanha passou a exportar mais de 55% da carne de porco que produz. As exportações têm sido tradicionalmente para países da União Europeia, que até há poucos anos representavam 75% das exportações espanholas. Mas essa situação está a alterar-se rapidamente e de acordo com os últimos dados disponíveis para 2020, a exportação extracomunitária de carcaças e peças já representa 52,8% do total.

Exportação de carcaças e peças de Espanha de Janeiro a Junho (toneladas). Fonte: AEAT.

Destinos 2019 2020 20%19 %Total
França 129.590 115.402 -10,9% 9,9%
Itália 94.039 111.601 +18,7% 9,6%
Portugal 55.521 46.794 -15,7% 4,0%
República Checa 37.614 37.189 -1,1% 3,2%
Hungria 19.412 19.880 +2,4% 1,7%
Reino Unido 25.930 21.218 -18,2% 1,8%
Alemanha 19.736 19.339 -2,0% 1,7%
Bulgária 22.288 18.704 -16,1% 1,6%
Dinamarca 13.716 12.785 -6,8% 1,1%
Roménia 33.679 32.444 -3,7% 2,8%
Total UE 564.965 548.932 -2,8% 47,2%
China 182.297 457.239 +150,8% 39,3%
Japão 81.424 69.501 -14,6% 6,0%
Coreia do Sul 41.806 26.040 -37,7% 2,2%
Filipinas 24.633 11.462 -53,5% 1,0%
Hong Kong 5.171 8.225 +59,1% 0,7%
EUA 5.439 747 -86,3% 0,1%
Total extra-UE 395.892 614.563 +55,2% 52,8%
Total 960.858 1.163.495 +21,1% 100%

Dentro dos países terceiros o principal cliente é a China, país do qual a Espanha foi o principal fornecedor em 2019 e no ano que decorre 40% das exportações de carcaçase peças (Gráfico 1).

Gráfico1. Evolução mensal da exportação de carcaças e peças de Espanha para França, Itália, Portugal, China e Japão. Fonte: AEAT.

A China teve em 2018, data de início dos surtos de Peste Suína Africana (PSA), uma crise sanitária sem precedentes que produziu um declínio muito significativo no seu efectivo e na produção de porcos. Como resultado, teve que recorrer aos mercados internacionais para obter carne de porco.

A PSA é uma doença contra a qual não há tratamento ou vacinas eficazes e, para o seu controlo, a única política sanitária possível é eliminar a doença com o abate e esvaziamento total das explorações afectadas, que serão repovoadas posteriormente com animais livres da doença, uma vez passados os períodos de quarentena. Esta é a única medida eficaz, até ao momento, para evitar recaídas e a propagação da doença por animais assintomáticos, mas portadores.

O aparecimento, no início de Setembro de 2020, de um foco de PSA na Alemanha está a causar fortes tensões no mercado de carnes a nível europeu e mundial e no comércio de leitão, especialmente holandês e dinamarquês, que eram em grande parte exportados para Alemanha.

Para o governo chinês, o abatecimento de carne de porco é fundamental, por ser considerada um alimento básico e um produto muito apreciado pela sua população. No entanto, de acordo com a maioria dos especialistas, a recuperação dos efectivos ainda levará de 2 a 3 anos, apesar das medidas estabelecidas pelo governo para controlar a PSA e recuperar os efectivos. Mas, como a produção de carne de porco é estratégica para a China, não há dúvida de que ela recuperará e não precisará de tantas importações pelo que, então o mercado mundial de carne de porco ficará stressado. A China precisa abastecer-se de carne, mas cada vez o faz com melhores condições económicas.

Não obstante, as condições geopolíticas estão em constante mudança e, por exemplo, uma possível mudança na presidência dos Estados Unidos nas próximas eleições legislativas em Novembro pode causar uma mudança nas relações comerciais com a China e, como consequência, modificar os mercados internacionais. Embora a disputa pela hegemonia mundial possa continuar a criar tensões entre as duas superpotências.

A China tratará de obter carne de porco de outros países. Assim, nos últimos meses, surgiu a notícia de que está a ser finalizado um acordo estratégico com o Governo da Argentina para a produção de carne de porco neste país. Não podemos esquecer que a Argentina é um grande produtor de matérias-primas para rações. A China não será provavelmente auto-suficiente nos próximos 5-10 anos, mas o seu poder de compra pode causar distorções no mercado.

A China está a aprender a jogar e joga com o seu poder de compra e sua geopolítica, usando a carne de porco como um de seus activos comerciais nas relações internacionais. Pode ser que no futuro as exportações espanholas para a China não sejam tão importantes.

O que acontecerá então no sector suíno espanhol? Estará preparado para actuar num mercado ainda mais maduro, onde os excedentes de carnes, principalmente europeus, terão que procurar outros mercados?

A Espanha deve estar preparada para a crise cíclica do sector, que pelos motivos sanitários acima descritos e pelo vigor das exportações do nosso sector em busca de novos mercados, se atrasou nos últimos anos, permitindo desfrutar de um período de bonança extraordinariamente longo.

Nesta conjuntura, a Espanha continua a crescer em termos de censos e produtividade, mas os produtores espanhóis devem considerar o aumento da eficiência como uma questão prioritária e pensar que não podem continuar a crescer indefinidamente.

É verdade que a Dinamarca, país onde o sector suíno representa mais de 5% do seu PIB, tem exportado cerca de 80% da sua produção nos últimos 20 anos, mas com pilares estruturais e planos de I+D+I muito fortes em Genética, Saúde Animal, Sustentabilidade, Maneio, Nutrição, etc. Actualmente, está a especializar-se na produção e exportação de leitões para os seus vizinhos europeus e muitos dos seus produtores, dada a impossibilidade de continuar a crescer no seu país, principalmente devido a questões ambientais, lideram projectos empresariais relacionados com a produção de porcos nos países da Europa de Leste, onde os salários são muito mais baixos do que na Dinamarca e podem continuar a crescer.

A Espanha deve estabelecer um Plano Estratégico do Sector Suíno que o torne mais eficiente e menos vulnerável no futuro. Um plano baseado, entre outras coisas, em: ­

Em conclusão, o sector suíno espanhol deverá priorizar a eficiência, rentabilidade e sustentabilidade, num quadro de biossegurança e saúde animal seguros, sem limitar os crescimentos e fazendo-os da maneira mais racional e sustentável.