Serão todos os leitões "não viáveis", realmente, não viáveis?

Inmaculada DíazM.A. de AndrésMaría Aparicio ArnayCarlos Piñeiro
26-Nov-2018 (há 7 anos 4 meses 12 dias)

Todos os profissionais do sector conhecem a grande importância do encolostramento nas primeiras horas de vida dos leitões. A mortalidade pré-desmame (MPD) reduz-se de 64% para 10% quando o leitão ultrapassa os 200 g de ingestão de colostro (N. Devillers et al, 2012. Figura 1).

Relação entre o consumo de colostro e a mortalidade pré-desmame

Este trabalho tão importante na maternidade tem-se complicado com os anos e com o avanço da genética. O aumento dos leitões nascidos totais (3 leitões/ninhada em 10 anos) supõe uma potencial vantagem produtiva, contudo, normalmente tem sido acompanhada de uma maior variabilidade do peso ao nascimento e de mais leitões nascidos com menos de 1,13kg. Em consequência, as percentagens de MPD segundo a idade do leitão têm evoluído: há 10 anos 70% da mortalidade dava-se no primeiro dia de vida; agora distribui-se mais equitativamente pelos intervalos de idade e as baixas entre os dias 2 e 7 duplicaram-se e igualam as do dia de nascimento em 2017 (Dados da PigCHAMP Pro Europa, 155 explorações de genéticas brancas. Figura 2).

Evolução, na última década, da distribuição por idade da mortalidade pré-desmame

Por outro lado, o aumento de prolificidade não foi acompanhado de um aumento proporcional da quantidade de colostro (Jourquin e Morales, 2018); deixando os leitões de menor peso ao nascimento em desvantagem em relação aos restantes. Nestas circunstâncias, o aumento da atenção e o encolostramento destes leitões é uma das principais medidas de controlo deste problema.

No falamos unicamente do encolostramento partilhado por turnos, mas sim de assegurar a boa vitalidade dos leitões mediante secagem ao nascimento, calor e, evidentemente, a assistência extra aos leitões pequenos para que ingiram, o quanto antes, a quantidade mínima necessária de colostro da sua mãe. Estes devem tomar, pelo menos, 30 % do seu peso vivo em colostro para poderem sobreviver (Jourquin e Morales, 2018).

Esta última tarefa costuma ser a mais difícil de implementar nas explorações. Requer tempo, paciência e consciencialização por parte dos trabalhadores, que muitas vezes identificam os leitões mais pequenos como não viáves sem que realmente o sejam e não lhes dedica suficiente esforço.

Os responsáveis de produção sabem bem que existem baixas na maternidade por falta de encolostramento, mas quantas são realmente por esse motivo? Estão a ser camufladas entre os leitões não viáveis? São maiores ou menores do que intuímos? Como podemos conseguir que os trabalhadores tenham consciência do problema?

Uma estratégia para responder a todas estas perguntas é “pôr um número” nesta população de leitões.

De seguida mostramos o processo e primeiros resultados em 4 explorações que procuravam identificar melhor a quantidade de baixas que têm devido a leitões possivelmente mal encolostrados e utilizar estes dados para consciencializar os trabalhadores da importância do encolostramento bem realizado e supervisionado. Todas elas sincronizam o parto e a maioria dão-se durante a jornada laboral.

Como primeira medida, criou-se uma nova causa de baixa na lactação: Pequenos.

Os operários são os que devem registar a causa da baixa e é aqui onde as explorações encontram o seu primeiro desafio: formar o trabalhador para que distinga, com precisão, nas condições da sua exploração, os leitões não viáveis dos pequenos, já que se suspeita que é o principal problema.

Para isso, realizam-se pesagens de leitões com os trabalhadores no dia do nascimento (Figura 3). O objectivo é treinar muito bem a pessoa responsável por identificar a causa da baixa e definir pontos claros de separação:

Decide-se registar e analisar, no mínimo, 6 meses antes de chegarmos às primeiras conclusões para tomar decisões.

Figura 3. Fotografías de pesajes al nacimiento y diferencias de tamaño dentro de la misma camada.

Estes novos dados começaram a registar-se em Janeiro de 2018 e todas as explorações apresentaram alterações nos padrões próprios de distribuição das baixas, especialmente em relação à causa não viável e outros, tal e como mostram a seguir as figuras 4, 5,6 e 7.

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Para definir melhor esta alteração de tendência, analisa-se a idade do leitão no momento da baixa comparando antes e depois de introduzir o novo conceito “pequenos”. A figura 8 mostra como, em todos os casos, a idade média de baixa dos leitões não viáveis diminui ao aparecer a nova causa.

 Idade da baixa das causas \não viável\ e \pequeno\.

Parece que muitos dos animais identificados como não viáveis realmente não o são. Simplesmente são animais mais pequenos aos que se deve dar uma atenção mais cuidada, começando pelo encolostramento e possivelmente, dependendo de cada exploração, melhorar as adopções precoces e ajustamentos das ninhadas.

Uma vez finalizado o período de 6 meses de recolha destes dados, poderá cumprir-se o primeiro objectivo: quantificar de forma mais precisa este problema e usá-lo para consciencializar o pessoal de que parte destes leitões podem ser salvos tendo uma melhor atenção nas primeiras horas de vida.

E como sempre, serão os números e não as sensações as que determinem o grau de melhoria em cada exploração após aplicar este critério juntamente com o adequado protocolo de trabalho.