Caso clínico: Surto de gripe tipo A numa exploração Minimal Disease

Jesús Borobia Belsue
19-Nov-2018 (há 7 anos 4 meses 20 dias)

Introdução

Trata-se de uma exploração comercial de 350 porcas em ciclo fechado na Irlanda do Norte.

A exploração é negativa a pneumonia enzoótica (Mycoplasma hyodysenteriae), pleuroneumonia suína (Actinobacillus pleuropneumoniae), gripe suína e PRRS.

A tabela 1 ilustra o protocolo vacinal:

Tabela 1. Programa vacinal.

Vacina Nulíparas Porcas Varrascos Leitões
Parvovirus + Mal rubro + Leptospirose 2 ml injectados no momento da selecção e 2 semanas antes da cobrição Injecção de 2 ml 2 semanas antes da cobrição Injecção de 2 ml duas vezes por ano
Vacina autógena (Streptococcus suis e Staphylococcus hyicus) 2 ml aos dias 65 e 95 após a cobrição 2 ml ao dia 95 após a cobrição

A reposição é produzida na própria exploração. Utilizam-se varrascos para despiste de cios. As nulíparas e as porcas são cobertas através de inseminação artificial com sémen proveniente de um único fornecedor.

A exploração mais próxima está a 6 km de distância.

História

O suinicultor contactou com o veterinário ao detectar, nos 3 dias anteriores, um aumento de dificuldade respiratória e mortalidade nos porcos de engorda..

Investigação

3.1. Investigação clínica

Durante uma visita à exploração, em Novembro de 2017, havia muitos porcos de 18 - 24 semanas com sinais clínicos de tosse (foto 1 e vídeo 1) e cianose nas partes mais distais do corpo. O comedouro com ração húmida não estava vazio, o que indica falta de apetite. Mediu-se a temperatura rectal de vários animais clinicamente afectados e verificou-se que apresentavam pirexia. A condição corporal dos animais era normal.

Porco a tossir num parque do hospital

Vídeo 1. Porcos clinicamente doentes, com tosse.


Realizou-se uma segunda visita duas semanas depois para recolher amostras de sangue das porcas e da engorda.

Antes do surto, a mortalidade desde o desmame até final da engorda era de 3,5%, principalmente devido a animais que eram eutanasiados por causa de hérnias e/ou prolapsos rectais.

3.2. Investigações no laboratório

Em Novembro de 2017 foram necropsiados três porcos que morreram na exploração (figura 2).

Porco de acabamento com cianose nas partes inferiores e distais do corpo.

Os três porcos necropsiados apresentaram petéquias múltiplas no parênquima pulmonar (figura 3). Foram recolhidas amostras que foram enviadas para o laboratório para análise.

Múltiplas petéquias no parênquima pulmonar

A tabela 2 resume as investigações laboratoriais dos pulmões.

Tabela 2. Resultados laboratoriais dos três pulmões enviados.

Resultados bacteriológicos Resultados biomoleculares
Pulmão 1 Sem crescimento. Negativo a Mycoplasma hyopneumoniae e PRRS por RT-PCR.
Positivo ao vírus da gripe tipo A por RT-PCR (CT:18.1) sub-tipo H1N1.
Pulmão 2 Sem crescimento. Negativo a Mycoplasma hyopneumoniae e PRRS por RT-PCR.
Positivo ao vírus da gripe tipo A por RT-PCR (CT:26.9) sub-tipo H1N1.
Pulmão 3 Sem crescimento. Negativo a Mycoplasma hyopneumoniae e PRRS por RT-PCR.
Positivo ao vírus da gripe tipo A por RT-PCR (CT:31.5) sub-tipo H1N1.

Exame histológico do tecido pulmonar apresentando infiltração linfocítica da lâmina própria e da sub-mucosa dos brônquios (figuras 4 e 5).

Bronquíolo que apresenta descamação e necrose do epitélio respiratório, em conjunto com uma notória infiltração linfocítica da lâmina própria e sub-mucosa.

Infiltração linfocitária perivascular

A tabela 3 resume as investigações laboratoriais das 14 amostras de sangue recolhidas das porcas e da engorda.

Tabela 3. Resultados laboratoriais das 14 amostras de sangue enviadas.

PRRS (ELISA) Gripe A (ELISA) Actinobacillus pleuropneumoniae (ELISA) PCV-2 (ELISA) Mycoplasma hyopneumoniae (ELISA)
3 porcos de 12 semanas com sintomas respiratórios 3 (-) 2 (+)
1 (-)
3 (-) 3 (-) 3 (-)
2 porcos recuperados 2 (-) 1 (+)
1 (-)
2 (-) 2 (-) 2 (-)
2 leitões com tosse de diferentes mães 2 (-) 2 (+) 2 (-) 2 (-) 2 (-)
7 porcas 7 (-) 7 (+) 7 (-) 7 (-) 7 (-)

Analisaram-se as amostras positivas à gripe A para procurar anticorpos contra sub-tipos H1N1, H3N2 & H1N2 e os sub-tipos pandémicos panH1N1 e panH1N2. Detectaram-se títulos muito elevados de anticorpos contra todos estes subtipos (≥ 320 to 2560) nos animais afectados, indicando uma infecção recente.

4. Diagnóstico diferencial

Com base na investigação clínica e laboratorial, preparou-se a seguinte lista para diagnóstico diferencial:

Com base no historial e na consistência das investigações clínicas e laboratoriais, diagnosticou-se vírus da gripe tipo A.

5. Programa de controlo

Implementou-se o seguinte protocolo de emergência para a gripe:

  1. Vacinação em massa de todas as reprodutoras: duas vezes, com um intervalos de 3 semanas entre vacinações.
  2. Os porcos foram vacinados ao desmame com 2 ml de uma vacina comercial contra a gripe assim que se diagnosticou a infecção.
  3. Medicação de todas as rações com 85 ppm de tartarato de tilvalosina por tonelada durante 20 dias para combater os agentes patogénicos respiratórios.

Uma vez imunizada duas vezes toda a reprodução, fez-se o seguinte:

  1. Vacinação das nulíparas: duas vezes antes da cobrição, com um intervalo de 3 semanas entre vacinações.
  2. As reprodutoras receberam um rappel 14 dias antes do parto (uma dose).

Infelizmente, no momento do surto, as vacinas disponíveis no país não cobriam os sub-tipos pandémicos panH1N1 e panH1N2. Como precaução, desde Setembro de 2018 foi introduzida uma vacina que cobre os sub-tipos pandémicos.

6. Resposta ao programa de controlo

Houve um aumento da mortalidade desde 3,5%, no início do surto para 11,5%, no pico de 4 semanas depois. A mortalidade reduziu-se gradualmente até atingir níveis normais 10 semanas após o início do surto.

A taxa de fertilidade caiu de 94% para 86% durante dois meses. Isto reflectiu-se numa redução da taxa de partos de 91% para 84% durante o mesmo período. Não houve abortos.

7. Discussão

A gripe suína é uma doença respiratória aguda, infecciosa provocada pelo vírus da gripe tipo A. A doença caracteriza-se por um início súbito, tosse, dispneia, febre e prostração, seguida por uma recuperação rápida. As lesões costuma desenvolver-se rapidamente no tracto respiratório e desaparecem rapidamente, mas nalguns casos uma pneumonia vírica severa pode produzir a morte (Easterday et al., 1999). Todos estes sinais clínicos foram observados neste caso.

A gripe suína é causada pelo vírus da gripe tipo A, da família Orthomyxoviridae. Há muita informação disponível sobre as características antigénicas, genéticas, estruturais e biológicas dos vírus gripe tipo A (Murphy et al., 1990; Lamb et al., 1996). As duas glicoproteínas de superfície do vírus, hemaglutinina (H) e neuraminidasa (N), são os principais antigenes para induzir imunidade protectiva no hospedeiro e, portanto, apresentam as maiores variações.

A vigilância levada a cabo na Irlanda do Norte entre 2011 e 2013 mostrou que o principal sub-tipo isolado em porcos foi o H1N1 pandémico, seguido por outros sub-tipos (H1N1, H3N2) com menor frequência (Borobia et al., 2015).

As condições meteorológicas eram favoráveis à disseminação do vírus no momento em que se aconteceu este surto. Houve humidade com temperatura flutuante durante os 3 meses anteriores e com períodos de fortes ventos.É provável que os humanos ou os estorninhos (figura 6) possam ter infectado os porcos por contacto directo ou por infecção aerógena devido à proximidade com outras explorações. Ambas as opções podem ter-se produzido neste caso.

Estorninhos em contacto directo com os porcos, comendo os restos de ração que ficam nos comedouros.

A morbilidade da gripe suína é descrita como elevada (próxima a 100%) (Taylor, 1995; Easterday et al., 1999), como se vê neste caso. Taylor (1995) e Easterday et al., (1999) descreveram uma taxa de mortalidade inferior a 1% a menos que haja infecções concomitantes e/ou os porcos sejam muito jovens. Infelizmente, neste caso, a mortalidade superou o 1%, como se descreve acima.

Diferentes autores descreveram problemas reprodutivos, de partos e neonatais em casos de gripe suína (Taylor, 1995; Muirhead et al., 1997; Easterday et al., 1999; Jackson et al., 2007). Neste caso só se observaram efeitos na taxa de retornos e no índice de partos.

O uso de tartarato de tilvalosina na ração baseia-se em relatórios do Dr. David Brown e da Dr. Amanda Stuart do Departamento de Patologia da Universidade de Cambridge. O efeito deste antibiótico macrólido sobre o PRRS reduziu o número de células infectadas in vitro em comparação com outro antibiótico macrólido, a tilosina. A tilvalosina também reduziu o número de células infectadas por outros vírus, incluindo vírus da gripe humana e equina (Brown et al., 2006). Além disso, a tilvalosina tem uma acumulação intracelular e distribuição para tratar doenças que outros macrólidos (Stuart et al., 2007).