A produção suína moderna alcançou avanços consideráveis em genética e desempenho nas últimas décadas. No entanto, esse progresso trouxe consigo um efeito colateral que os frigoríficos conhecem muito bem: um aumento expressivo das condenações de carcaças relacionadas a distúrbios locomotores. A prevalência de lesões graves nos cascos no momento do abate quase dobrou em dez anos — passando de aproximadamente 30% para mais de 60% —, tornando a compreensão desse fenômeno fundamental para aqueles que buscam proteger a rentabilidade em toda a cadeia produtiva.
A principal causa está em um descompasso fundamental entre a velocidade do crescimento muscular e a maturação do sistema esquelético. Ao selecionar geneticamente animais para que cresçam mais rapidamente e atinjam maiores pesos de abate, submetemos as articulações e os cascos a exigências mecânicas para as quais essas estruturas, muitas vezes, ainda não estão preparadas. O resultado é um sistema locomotor intrinsecamente mais vulnerável, que acumula microtraumatismos ao longo da fase de terminação e compromete progressivamente a integridade dos cascos.
O ambiente de criação agrava consideravelmente o problema. Os pisos ripados, as superfícies abrasivas, úmidas ou deterioradas e a alta densidade de animais aumentam diariamente o impacto mecânico sobre os cascos. Trata-se de uma combinação de fatores cumulativos que transforma um tecido já submetido ao estresse em um ponto previsível de falha.
Entre as lesões nos cascos, as lesões graves da linha branca merecem atenção especial. A linha branca, que corresponde à união entre a parede do casco e a sola, é composta por um tecido córneo menos denso e mais poroso, o que a torna o ponto estruturalmente mais frágil de todo o casco. A sobrecarga mecânica, o excesso de umidade e o acúmulo de sujeira encontram justamente nessa região uma via de entrada.
As microfissuras na linha branca permitem a penetração de bactérias e matéria orgânica, criando condições ideais para o desenvolvimento de processos inflamatórios e infecciosos. Clinicamente, a consequência mais frequente é a laminite, acompanhada de claudicação moderada a grave. Um animal que apresenta claudicação e sente dor reduz o consumo de ração, perde ganho diário de peso e transfere a carga para os membros contralaterais, agravando ainda mais o quadro clínico.

O que muitos produtores ainda não consideram suficientemente é que uma lesão no casco não representa apenas um problema de bem-estar ou desempenho na granja. Frequentemente, constitui o ponto de partida de uma infecção sistêmica que só se torna evidente durante a inspeção post mortem e, em algumas ocasiões, afeta estruturas anatômicas muito distantes do casco lesionado. E esse aspecto costuma ser subestimado.
Uma vez comprometida a barreira cutânea ou córnea, patógenos como Trueperella pyogenes, Staphylococcus spp. e Streptococcus spp. podem acessar os sistemas linfático e circulatório. A partir daí, a disseminação pela corrente sanguínea pode gerar focos sépticos em ossos e articulações de diferentes regiões do animal. A osteomielite vertebral e mandibular está entre as possíveis consequências e já representa a maior parte das condenações totais de carcaças em alguns frigoríficos com elevado volume de abate. A presença de abscessos ósseos ou de múltiplos focos purulentos é suficiente para que os serviços oficiais de inspeção veterinária determinem a condenação total da carcaça e sua destruição. Sem exceções.
Além das consequências infecciosas, os animais com problemas locomotores são muito mais propensos a sofrer quedas e fraturas durante o transporte e o manejo pré-abate. Os hematomas extensos resultantes frequentemente exigem a realização de aparas significativas ou condenações parciais de cortes de alto valor, como o pernil.

As perdas econômicas associadas aos distúrbios locomotores são consideravelmente maiores do que aquelas normalmente registradas nas granjas. As perdas diretas, como as condenações totais ou parciais que penalizam a classificação da carcaça devido à remoção de partes dos cortes, são as mais visíveis. No entanto, as perdas indiretas que ocorrem ao longo de todo o ciclo produtivo são igualmente importantes:
Em um mercado no qual existe um controle cada vez maior sobre os padrões de bem-estar animal, uma alta taxa de lesões locomotoras identificadas no frigorífico também começa a afetar o acesso a programas de bonificação e segmentos de mercado de maior valor. Trata-se de um custo competitivo que vai muito além do frigorífico.
O monitoramento sistemático das lesões nos cascos e a avaliação de claudicação devem se tornar componentes habituais dos protocolos de manejo, tanto nas granjas quanto nos frigoríficos. A detecção precoce, o ajuste da densidade de animais, a manutenção rigorosa dos pisos e os critérios de seleção genética que considerem a robustez esquelética, e não apenas o desempenho produtivo, constituem os pilares de qualquer estratégia eficaz.
Reconhecer que uma lesão da linha branca identificada na granja é precursora da condenação da carcaça no frigorífico muda radicalmente a abordagem desse problema. Não se trata simplesmente de uma questão de bem-estar animal individual ou de desempenho na fase de terminação: é uma questão de sustentabilidade econômica de toda a operação.