Lesões nos cascos e condenações de carcaças: uma relação mais próxima do que parece

Ton Kramer
02-Nov-2026 (ontem)

A produção suína moderna alcançou avanços consideráveis em genética e desempenho nas últimas décadas. No entanto, esse progresso trouxe consigo um efeito colateral que os frigoríficos conhecem muito bem: um aumento expressivo das condenações de carcaças relacionadas a distúrbios locomotores. A prevalência de lesões graves nos cascos no momento do abate quase dobrou em dez anos — passando de aproximadamente 30% para mais de 60% —, tornando a compreensão desse fenômeno fundamental para aqueles que buscam proteger a rentabilidade em toda a cadeia produtiva.

O problema começa muito antes do abate

A principal causa está em um descompasso fundamental entre a velocidade do crescimento muscular e a maturação do sistema esquelético. Ao selecionar geneticamente animais para que cresçam mais rapidamente e atinjam maiores pesos de abate, submetemos as articulações e os cascos a exigências mecânicas para as quais essas estruturas, muitas vezes, ainda não estão preparadas. O resultado é um sistema locomotor intrinsecamente mais vulnerável, que acumula microtraumatismos ao longo da fase de terminação e compromete progressivamente a integridade dos cascos.

O ambiente de criação agrava consideravelmente o problema. Os pisos ripados, as superfícies abrasivas, úmidas ou deterioradas e a alta densidade de animais aumentam diariamente o impacto mecânico sobre os cascos. Trata-se de uma combinação de fatores cumulativos que transforma um tecido já submetido ao estresse em um ponto previsível de falha.

A linha branca: onde tudo começa a falhar

Entre as lesões nos cascos, as lesões graves da linha branca merecem atenção especial. A linha branca, que corresponde à união entre a parede do casco e a sola, é composta por um tecido córneo menos denso e mais poroso, o que a torna o ponto estruturalmente mais frágil de todo o casco. A sobrecarga mecânica, o excesso de umidade e o acúmulo de sujeira encontram justamente nessa região uma via de entrada.

As microfissuras na linha branca permitem a penetração de bactérias e matéria orgânica, criando condições ideais para o desenvolvimento de processos inflamatórios e infecciosos. Clinicamente, a consequência mais frequente é a laminite, acompanhada de claudicação moderada a grave. Um animal que apresenta claudicação e sente dor reduz o consumo de ração, perde ganho diário de peso e transfere a carga para os membros contralaterais, agravando ainda mais o quadro clínico.

Pig claws

Da granja ao frigorífico: a via de infecção

O que muitos produtores ainda não consideram suficientemente é que uma lesão no casco não representa apenas um problema de bem-estar ou desempenho na granja. Frequentemente, constitui o ponto de partida de uma infecção sistêmica que só se torna evidente durante a inspeção post mortem e, em algumas ocasiões, afeta estruturas anatômicas muito distantes do casco lesionado. E esse aspecto costuma ser subestimado.

Uma vez comprometida a barreira cutânea ou córnea, patógenos como Trueperella pyogenes, Staphylococcus spp. e Streptococcus spp. podem acessar os sistemas linfático e circulatório. A partir daí, a disseminação pela corrente sanguínea pode gerar focos sépticos em ossos e articulações de diferentes regiões do animal. A osteomielite vertebral e mandibular está entre as possíveis consequências e já representa a maior parte das condenações totais de carcaças em alguns frigoríficos com elevado volume de abate. A presença de abscessos ósseos ou de múltiplos focos purulentos é suficiente para que os serviços oficiais de inspeção veterinária determinem a condenação total da carcaça e sua destruição. Sem exceções.

Além das consequências infecciosas, os animais com problemas locomotores são muito mais propensos a sofrer quedas e fraturas durante o transporte e o manejo pré-abate. Os hematomas extensos resultantes frequentemente exigem a realização de aparas significativas ou condenações parciais de cortes de alto valor, como o pernil.

Lesión de la línea blanca

Qual é o custo real?

As perdas econômicas associadas aos distúrbios locomotores são consideravelmente maiores do que aquelas normalmente registradas nas granjas. As perdas diretas, como as condenações totais ou parciais que penalizam a classificação da carcaça devido à remoção de partes dos cortes, são as mais visíveis. No entanto, as perdas indiretas que ocorrem ao longo de todo o ciclo produtivo são igualmente importantes:

Em um mercado no qual existe um controle cada vez maior sobre os padrões de bem-estar animal, uma alta taxa de lesões locomotoras identificadas no frigorífico também começa a afetar o acesso a programas de bonificação e segmentos de mercado de maior valor. Trata-se de um custo competitivo que vai muito além do frigorífico.

O que pode ser feito?

O monitoramento sistemático das lesões nos cascos e a avaliação de claudicação devem se tornar componentes habituais dos protocolos de manejo, tanto nas granjas quanto nos frigoríficos. A detecção precoce, o ajuste da densidade de animais, a manutenção rigorosa dos pisos e os critérios de seleção genética que considerem a robustez esquelética, e não apenas o desempenho produtivo, constituem os pilares de qualquer estratégia eficaz.

Reconhecer que uma lesão da linha branca identificada na granja é precursora da condenação da carcaça no frigorífico muda radicalmente a abordagem desse problema. Não se trata simplesmente de uma questão de bem-estar animal individual ou de desempenho na fase de terminação: é uma questão de sustentabilidade econômica de toda a operação.