Colostro e viabilidade dos leitões: além da quantidade e das imunoglobulinas (Parte I)

Federico CorreaPaolo TrevisiDiana Luise
31-Ago-2026 (hoje)

Introdução

Nos primeiros dias de vida concentra-se a maior taxa de mortalidade dos leitões. Nessa fase, o colostro representa o principal fator que influencia a sobrevivência, o crescimento e o desenvolvimento imunológico.

Embora há muito tempo se saiba que a quantidade ingerida é determinante, existem cada vez mais evidências de que a qualidade do colostro também desempenha um papel fundamental.

Um estudo recente analisou detalhadamente a composição do colostro por meio de uma abordagem multiômica, evidenciando relações diretas com a mortalidade, o crescimento e o desenvolvimento da microbiota intestinal dos leitões (Luise et al., 2026).

O estudo

O estudo incluiu 20 porcas (Large White × Landrace) divididas por paridade:

Todos os animais foram criados nas mesmas condições e receberam a mesma alimentação para garantir uma comparação confiável.

Imediatamente após o parto, foram coletadas amostras de colostro e analisadas para determinar:

Essas análises forneceram uma imagem muito detalhada desse primeiro alimento essencial.

Paralelamente, foi estudada a microbiota intestinal dos leitões aos 6 e 24 dias de idade. Os leitões, sempre nas mesmas leitegadas, foram pesados e monitorados para avaliar seu crescimento e mortalidade.

Graças a análises estatísticas avançadas, foi possível correlacionar a qualidade do colostro com o desenvolvimento da microbiota e o desempenho dos leitões, proporcionando uma visão mais completa da relação entre a nutrição materna e a saúde da progênie.

Essa abordagem não apenas permitiu identificar nutrientes individuais, mas também evidenciar as relações funcionais entre o metabolismo materno, o colostro e o desenvolvimento dos leitões, oferecendo uma visão mais abrangente do que as análises tradicionais. O objetivo foi identificar quais componentes do colostro, dependentes ou não da paridade da porca, estão mais estreitamente associados à sobrevivência e ao crescimento da leitegada.

Efeito da paridade sobre o desempenho da leitegada e a caracterização multiômica do colostro

Um dos principais achados refere-se ao papel da paridade. As porcas de segundo parto apresentaram a maior mortalidade, enquanto as primíparas produziram leitões com menor peso ao nascer (Tabela 1). Esses resultados estão de acordo com o descrito na literatura, que indica que porcas jovens apresentam maiores dificuldades relacionadas às exigências nutricionais e ao estado fisiológico.

Tabela 1. Efeito da paridade sobre o desempenho dos leitões

Parâmetro Primíparas 2° parto Multíparas P-valor
Ao nascimento (d0)
Nascidos totais (n) 16,0 16,6 16,5 0,95
Nascidos vivos (n) 14,3 15,6 14,2 0,43
Nascidos mortos (n) 1,00 0,57 1,50 0,23
Mumificados (n) 0,85 0,42 0,83 0,50
Peso ao nascer (g) 1,347ᵇ 1,571ᵃ 1,548ᵃᵇ 0,036
Leitões de baixo peso (%) 34,0 21,0 25,5 0,21
Leitões normais (%) 49,7 47,1 57,5 0,64
Leitões pesados (%) 10,6ᴮ 28,7ᴬ 12,3ᴮ <0,001
Variabilidade da leitegada (%) 21,1 14,0 19,4 0,39
Aos 6 dias (d6)
Tamanho da leitegada (n)1 11,2 11,7 10,6 0,77
Mortalidade (%)2 9,99ᴮ 23,2ᴬ 12,01ᴮ <0,001
Mortalidade de leitões de baixo peso (%) 34,1 54,3 61,8 0,47
Peso (g) 2,573 2,476 2,604 0,68
Variabilidade da leitegada (%) 16,1ᴬ 25,8ᴮ 20,2ᴬᴮ 0,025
Crescimento d0–d6 (g/dia) 176 154 177 0,56
Aos 24 dias (d24)
Tamanho da leitegada (n)1 10,9 8,57 9,11 0,17
Mortalidade (%)2 18,8ᴮ 39,4ᴬ 34,3ᴮ <0,001
Mortalidade de leitões de baixo peso (%) 42,4 60,1 64,3 0,63
Peso (g) 6,090 7,140 6,976 0,07
Crescimento d0–d24 (g/dia) 195 237 231 0,08

¹ A redução do tamanho da leitegada em d6 e d24 deve-se tanto à mortalidade dos leitões quanto à transferência de alguns deles para outras leitegadas devido ao crescimento insuficiente.
² A mortalidade é cumulativa e foi calculada entre d0 e d6 e entre d0 e d24.
As diferentes letras (a, b; A, B, C) indicam diferenças significativas entre os grupos; letra maiúscula = diferença mais acentuada (P < 0,05).

Ao contrário do que muitas vezes se considera na prática, os parâmetros tradicionais do colostro, como proteína, lactose e imunoglobulinas, não explicam, por si só, as diferenças observadas no desempenho dos leitões. De fato, não foram detectadas diferenças significativas nesses parâmetros entre as diferentes paridades.

As diferenças mais significativas estão relacionadas aos perfis de ácidos graxos e metabolômicos do colostro, como observado nas Figuras 1 e 2.

Em relação ao perfil de ácidos graxos:

Isso sugere uma maior mobilização das reservas corporais nas primíparas, associada a maiores exigências energéticas. As diferenças nos ácidos graxos de cadeia ramificada (AGCR) também podem refletir os efeitos combinados da dieta e da microbiota.

O perfil metabolômico revela diferenças ainda mais acentuadas entre as paridades. As principais variações referem-se aos metabólitos de aminoácidos e peptídeos, que são mais abundantes nas primíparas (FruLeuIle, lisina, N-acetiltriptofano), indicando uma maior mobilização proteica, provavelmente relacionada a um consumo subótimo destes na fase final da gestação. As primíparas também apresentam sinais de maior estresse oxidativo (N-acetiltriptofano, S-lactoilglutationa), enquanto as multíparas apresentam maior presença de metabólitos de origem microbiana (L-beta-homotirosina), sugerindo uma microbiota mais estável e madura.

De modo geral, o efeito da paridade sobre a composição do colostro está relacionado principalmente ao estado metabólico da porca: mais crítico nas primíparas e mais estável nas multíparas.

2

3

D

Classificação química VIP Log2FC (primíparas vs multíparas) Log2FC (primíparas vs 2º parto) Log2FC (2º parto vs multíparas)
Metabolito
FruLeulle Peptídeo 2,79 2,64 0,48 2,16
Leu-Gly-Gly Peptídeo 2,77 0,83 -1,34 2,17
Lisina Aminoácido 2,52 1,53 2,45 -0,92
N-acetiltriptofano Derivado de triptofano 2,08 2,33 1,45 0,88
L-beta-omotirosina Derivado de aminoácido 1,94 -2,60 -1,81 -0,80
Histidina Aminoácido 1,71 -1,11 -1,12 0,01
Quinurenina Derivado de triptofano 1,50 -0,55 0,75 -1,30
Éster etílico de arginina Derivado de arginina 1,46 0,08 0,96 -0,89
Ácido lipoico Derivado lipídico 1,44 0,63 1,29 -0,65
S-lactoilglutationa Oligopeptídeo 1,33 0,77 0,30 0,47
L-carnitina Carnitina 1,30 0,28 -0,53 0,81
Guanosina monofosfato (GMP) Nucleotídeo 1,23 0,76 0,35 0,41

Log2FC: valores positivos → maior concentração no primeiro grupo; valores negativos → maior concentração no grupo de comparação.

Implicações práticas

Agradecimentos

A pesquisa foi financiada pelo projeto BOOSTcolostrum (P2022ZTYLS—CUP J53D23018670001) – NextGenerationEU – Plano Nacional de Recuperação e Resiliência (PNRR) – DD nº 1409 de 14/09/2022. https://site.unibo.it/boostcolostrum/it