O consumo precoce após o desmame: o verdadeiro ponto de inflexão para a saúde intestinal

Júlia Suppi PérezEudald Llauradó-CaleroDavid Solà-Oriol
29-Jul-2026 (hoje)

Tradicionalmente, a atenção aos leitões desmamados concentrou-se na prevenção e no controle das diarreias pós-desmame. Contudo, os eventos fisiológicos que ocorrem durante os primeiros dias após o desmame permanecem pouco caracterizados, apesar de serem críticos para a saúde intestinal. As evidências científicas atuais indicam que a ingestão de alimento imediatamente após o desmame pode influenciar de forma decisiva o crescimento futuro do animal. Além disso, foi observada uma associação entre o consumo precoce e o aumento de linfócitos na mucosa intestinal, sugerindo um papel modulador da dieta na manutenção da integridade da barreira intestinal (McCracken et al., 1999; Fabà et al., 2024).

Com base nessa premissa, o objetivo do presente estudo foi caracterizar a evolução do consumo de ração sólida durante a fase de lactação e nos quatro primeiros dias após o desmame, correlacionando esses padrões com a inflamação intestinal, utilizando a calprotectina fecal como biomarcador não invasivo da resposta inflamatória local.

Caracterização da população

Este estudo foi estruturado em duas fases distintas. A primeira teve como objetivo quantificar a prevalência de animais que mantêm uma ingestão contínua durante a transição do desmame.

Para monitorar o comportamento alimentar individual, a ração pré-inicial (creep-feed) foi suplementada com um corante indigerível. A determinação do consumo foi realizada por meio da detecção desse corante em swabs retais. O creep-feed foi fornecido continuamente desde o décimo dia de lactação até quatro dias após o desmame.

No desmame e no terceiro dia pós-desmame, o consumo individual foi avaliado e os animais classificados em três categorias:

Além disso, os animais foram pesados no desmame, aos 3 dias e aos 10 dias pós-desmame para avaliar seu desempenho de crescimento.

Tabela 1. Prevalência de consumo e crescimento dos leitões de acordo com as diferentes categorias de consumo no desmame: consumidores de creep-feed (CFE), consumidores após o desmame (PWE) e não consumidores (NE).

Categoria de consumo P-val
CFE NE PWE
Prevalência de consumo
ao desmame (%)
4,49 %
(28 / 623)
95,5 %
(595 / 623)
- -
Peso vivo ao desmame (kg) 5,49 ± 0,24 5,90 ± 0,05 - 0,092
Prevalência de consumo
3 dias pós-desmame (%)
4,49 %
(28 / 623)
26,0 %
(162 / 623)
69,51 %
(433 / 623)
-
Peso vivo
3 dias pós-desmame (kg)
6,13a ± 0,10 5,66b ± 0,04 5,96a ± 0,03 < 0,001
Peso vivo
10 dias pós-desmame (kg)
7,05a ± 0,13 6,19c ± 0,05 6,61b ± 0,03 < 0,001
GMD1 desmame
3 dias pós-desmame (g/d)
63,0a ± 23,6 - 63,4b ± 9,9 19,9a ± 6,0 < 0,001
GMD desmame
10 dias pós-desmame (g/d)
117a ± 13 27,0c ± 5,6 72,8b ± 3.4 < 0,001

1 abreviação: GMD: ganho médio diário.

Dos 623 animais avaliados, apenas 4,5% consumiram creep-feed durante a lactação, enquanto 95,5% não experimentaram esse alimento.

Entre os animais classificados como CFE, a maioria manteve o consumo durante os três primeiros dias após o desmame. Paralelamente, cerca de 70% do total iniciou o consumo de alimento sólido nesse mesmo período, enquanto um preocupante 26% permaneceu em jejum por pelo menos quatro dias.

Quando esses dados são relacionados ao desempenho produtivo, observa-se que os animais CFE pesavam, em média, cerca de 400 g a menos no desmame do que os animais NE. No entanto, aos 10 dias pós-desmame, os CFE não apenas compensaram essa diferença, como a superaram, alcançando um peso médio aproximadamente 800 g superior ao dos animais NE.

Esses resultados indicam que o fator realmente determinante não é apenas o consumo de creep-feed durante a lactação, mas sim a capacidade de iniciar e manter a ingestão de alimento nos primeiros dias após o desmame.

A partir daí surge a pergunta: como isso se reflete na inflamação intestinal?

Distribuciones del peso corporal

Caracterização da inflamação intestinal em função do consumo

Na segunda fase do estudo, para correlacionar os diferentes padrões de consumo com seus possíveis efeitos sobre a inflamação intestinal, foi medida a concentração de calprotectina fecal.

Essa molécula, liberada pelos neutrófilos, é amplamente utilizada na medicina humana para o diagnóstico e acompanhamento de doenças inflamatórias intestinais e já havia sido validada pelo grupo de pesquisa (Pato et al., 2023; Suppi et al., 2026).

O uso desse marcador nas fezes apresenta diversas vantagens: é um método não invasivo, permite medições repetidas ao longo do tempo e fornece informações específicas sobre a inflamação intestinal.

Para essa análise, foi selecionado um subgrupo de 74 animais, amostrados diariamente desde o desmame até o terceiro dia pós-desmame. Na Figura 2 é apresentada a evolução da concentração de calprotectina fecal conforme a categoria de consumo.

Evolución de la calprotectina fecal

Observa-se que os animais classificados como NE apresentaram concentrações significativamente mais elevadas durante todo o período em comparação aos consumidores contínuos (P < 0,001). Por outro lado, os animais que iniciaram o consumo nos três primeiros dias apresentaram uma redução progressiva da calprotectina, alcançando níveis semelhantes aos dos animais CFE por volta do terceiro dia pós-desmame. Um aspecto particularmente interessante é que os animais NE já apresentavam valores significativamente mais elevados desde o início. Isso dificilmente ocorre por acaso. Considerando que esses animais geralmente são os mais pesados do lote e que, conforme observado anteriormente, tendem a participar mais intensamente das interações agressivas para o estabelecimento da hierarquia social, é razoável supor que esse aumento esteja relacionado ao estresse pós-desmame.

Além disso, os animais de maior peso costumam consumir mais leite materno e, por isso, apresentam menor necessidade de ingerir creep-feed durante a lactação, tornando-se justamente aqueles mais afetados pela adaptação ao consumo de alimento sólido após o desmame.

Também é importante destacar que as amostras coletadas no dia 0 foram obtidas quando os animais já haviam sido reagrupados nas baias. Dessa forma, o aumento inicial da calprotectina provavelmente reflete uma resposta inflamatória associada ao estresse provocado por essa reorganização.

Discussão final

O presente estudo evidencia o quão frequente é o problema da baixa ingestão de alimento nos primeiros dias após o desmame, especialmente em sistemas com lactações curtas.

Aproximadamente 25% da população não iniciou o consumo de ração sólida durante o período avaliado.

Essa ausência de ingestão esteve correlacionada com um aumento significativo da inflamação intestinal, comprometendo a integridade funcional do epitélio intestinal e, consequentemente, reduzindo o potencial de crescimento dos animais.

Por outro lado, o consumo de creep-feed durante a lactação não é um detalhe secundário, mas sim um fator claramente determinante.

O consumo durante a lactação praticamente garante a ingestão de alimento após o desmame, minimizando o período de jejum. Essa transição mais suave está associada a uma menor resposta inflamatória intestinal e permite que esses animais alcancem e até superem o desempenho produtivo de seus companheiros, otimizando sua curva de crescimento futura.