05 de maio de 2026/ Embrapa/ Brasil.
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O Brasil importa cerca de 75% dos fertilizantes fosfatados que consome, uma vulnerabilidade conhecida e sem solução simples no horizonte. A pesquisa da Embrapa Agrobiologia aponta um caminho que parte, justamente, de dentro da suinocultura.
A estruvita é um mineral obtido por precipitação química de nutrientes presentes nos dejetos suínos. Sua composição (aproximadamente 12% de fósforo, 5% de nitrogênio e 10% de magnésio) e sua baixa solubilidade fazem dela um fertilizante de liberação lenta, com comportamento distinto dos fosfatados convencionais. Em solos tropicais, onde o fósforo solúvel tende a ser fixado rapidamente por óxidos de ferro e alumínio, essa característica representa uma vantagem agronômica concreta.
Os experimentos em lavouras de soja mostraram que a estruvita foi capaz de suprir até 50% da demanda por fósforo, mantendo produtividade de 3.500 kg/ha, próxima à média nacional registrada em 2025. Os pesquisadores também desenvolveram uma formulação organomineral que, em testes de difusão de fósforo no solo, apresentou resultados 50% superiores aos da estruvita granulada pura nos primeiros 28 dias.
Para a suinocultura, os benefícios vão além da geração de um insumo comercializável. Em sistemas de produção intensiva, especialmente nas regiões Sul e Centro-Oeste, a disposição adequada dos dejetos é um gargalo real. A legislação ambiental limita a quantidade de nitrogênio e fósforo que pode ser aplicada por área, o que restringe diretamente a capacidade de alojamento das granjas. A precipitação da estruvita retira o excesso desses nutrientes dos efluentes antes da aplicação no solo, reduzindo o risco de contaminação de águas superficiais e subterrâneas e, consequentemente, abrindo margem para ampliar o plantel sem comprometer a conformidade ambiental. Estimativas da Embrapa indicam que propriedades com mais de 5 mil suínos poderiam gerar cerca de 340 mil toneladas de estruvita por ano no Brasil, volume que, além de aliviar o passivo ambiental, representa uma nova fonte de receita para os produtores.
Sobre a questão do fósforo, vale contextualizar: o nutriente é o segundo mais importante na agricultura, atrás apenas do nitrogênio, e sua ausência afeta diretamente crescimento vegetal, floração, enchimento de grãos e frutificação. Ao contrário do nitrogênio, abundante na atmosfera, as reservas minerais de fósforo são finitas e não renováveis. O temor de esgotamento iminente das rochas fosfáticas arrefeceu nas últimas décadas (as estimativas apontam reservas globais para séculos à frente), mas a concentração da produção em poucos países e os choques de preço são uma realidade com a qual o Brasil convive de forma especialmente aguda, dada a limitação de suas reservas domésticas. Esse cenário motivou o governo a criar programas de incentivo à redução da dependência externa, e a pesquisa com estruvita está alinhada ao Plano Nacional de Fertilizantes, que busca ampliar a produção nacional e incentivar fontes alternativas mais eficientes e sustentáveis.
A pesquisa envolve Embrapa Agrobiologia, Embrapa Solos, Embrapa Suínos e Aves, UFSC, UFSM, UniRV e Instituto Federal Farroupilha, com financiamento de CNPq e Embrapa. O foco agora está em consolidar a base científica necessária para o registro regulatório e a adoção comercial do fertilizante.