Estamos baixando a guarda contra a peste suína africana? O lobo virá (1 de 2)

Patrícia XavierChristian Gortázar
05-Nov-2025 (há 5 meses 24 dias)

Há três anos, a 333 realizou uma pesquisa para avaliar a percepção do setor sobre o risco de entrada da peste suína africana (PSA) em cada país. Em 2022, 65% dos entrevistados acreditavam que a PSA representava um risco iminente e que o vírus entraria em menos de três anos. No entanto, a pergunta não é se ele vai chegar, e sim quando. Por isso, estar preparados continua sendo essencial. Este artigo revisa o cenário atual na Europa, os principais mecanismos de transmissão, as medidas que têm funcionado e o nível de preparo que realmente temos.

Cenário atual da PSA: a maior expansão da história

A peste suína africana nunca havia alcançado uma distribuição tão ampla em nível mundial. Na União Europeia, já são 13 os Estados-Membros afetados. Embora países como Bélgica e Suécia tenham conseguido erradicar o vírus após sua detecção inicial, a doença continua avançando em outras regiões. Em 2024, foram notificados mais de 14.000 casos em javalis e, embora os surtos em suínos domésticos tenham diminuído 83%, novas granjas continuam sendo afetadas, especialmente as pequenas, no sudeste da Europa. E o vírus segue avançando para o oeste (figura 1).

ASF in Europe

Como se propaga a PSA

A PSA se propaga por duas grandes vias: uma natural, mais lenta, porém constante, e outra mediada pela ação humana, muito mais rápida, imprevisível e difícil de conter.

A propagação natural ocorre entre javalis, que atuam como reservatório. Um exemplo é a expansão do vírus na região do Báltico. Os deslocamentos naturais dos javalis em busca de alimento ou durante o período reprodutivo favorecem a disseminação da infecção. O ambiente desempenha um papel determinante nessa dinâmica.

Os fatores que influenciam diretamente a direção e a velocidade do contágio incluem:

A distâncias muito curtas (menos de 500 metros), até mesmo vetores mecânicos, como a mosca dos estábulos (Stomoxys calcitrans), poderiam desempenhar um papel. De qualquer forma, a expansão natural não ultrapassa 15 a 30 km por ano, ou seja, é muito lenta.

Todo novo caso que ocorra a mais de 100 km de uma zona infectada deverá ser, muito provavelmente, resultado da ação humana.

A disseminação mediada pelo ser humano representa uma via de transmissão difícil de prever, capaz de levar o vírus até, por exemplo, a ilha La Española (República Dominicana e Haiti), no Caribe.

As introduções da PSA por ação humana ocorrem principalmente por duas vias:

Sabemos como o vírus entrou? Rumores de bastidores

É muito difícil identificar a causa exata de cada introdução do vírus, embora quase sempre surjam especulações impossíveis de comprovar, por exemplo:

A via marítima constitui uma ameaça real. Além do caso da Geórgia, considera-se possível que o vírus tenha chegado a Gênova (Itália) por meio do tráfego marítimo internacional. Os países com infraestruturas portuárias não devem subestimar esse risco.

Medidas de controle de PSA em javalis

A experiência europeia demonstra que o controle da PSA em populações de javalis é possível, mas exige um esforço extraordinário. Os cenários com maior probabilidade de sucesso compartilham três condições fundamentais:

A Suécia conseguiu erradicar a doença graças à detecção precoce e à aplicação imediata de medidas como a caça estratégica, a remoção sistemática de carcaças infectadas, o rápido cercamento para limitar o movimento dos animais e o reforço da biosseguridade nas granjas suinícolas.

O controle torna-se muito mais complexo quando:

Nesses casos, as medidas de intervenção perdem eficácia, a gestão se prolonga no tempo e os custos aumentam significativamente (figura 2).

Introdução da Peste Suína Africana

Que novas ferramentas podemos esperar?

Embora existam projetos promissores para o desenvolvimento de vacinas contra a PSA, os avanços ainda não permitem prever uma solução disponível em curto prazo. O mesmo ocorre com a imunoesterilização por GnRH, proposta para o controle populacional de javalis. Apesar de suas vantagens teóricas, o fato de que a imunização precise ser administrada individualmente e por injeção torna essa opção pouco viável na fauna silvestre, cujas populações são numerosas, dispersas e de difícil acesso.

A integração de tecnologias como o fotomonitoramento (câmeras-trap), a telemetria e até o uso de drones está abrindo novas possibilidades. Essas ferramentas permitem obter dados essenciais sobre a densidade, a conectividade e os padrões de movimento dos javalis, facilitando decisões mais informadas e ajustadas ao contexto epidemiológico.

Diante do que ocorreu em países recentemente infectados, a pergunta óbvia é: estamos realmente preparados para essa ameaça? A essa questão dedicaremos nosso próximo artigo.