Qual a melhor idade para desmamar os leitões?

Enric Marco
09-Ago-2023 (há 2 anos 8 meses 20 dias)

Em 2009, J. Barceló explicava qual era, na sua opinião, a melhor idade para desmamar os leitões. Ele disse:

“Se há alguns anos tivéssemos feito esta pergunta a veterinários, técnicos especializados e produtores de suínos, certamente a grande maioria teria respondido que é melhor desmamar com três semanas. No entanto, a suinocultura está em contínuas mudanças e sua evolução questiona aquela velha obviedade quanto à idade de desmame. Neste artigo tentarei explicar por que em muitos sistemas de produção a idade de desmame está sendo adiada para 28 dias para atingir a meta de produzir um mínimo de 200 kg de peso desmamado por porca produtiva por ano.”

Hoje poderíamos escrever a mesma coisa e ainda seria atual. A idade média ao desmame ainda não atingiu 28 dias na Espanha.Evolução da idade ao desmame na Espanha

Desde 2017, a mortalidade na fase pós-desmame (6-20 kg.) não parou de aumentar, atingindo o seu recorde em 2022 com 8,4% segundo dados do SIP. Diante desse cenário, parece que uma das primeiras medidas a serem aplicadas seria ter leitões mais maduros ao desmame, que pudessem suportar melhor o estresse do desmame e as subsequentes condições de alojamento. No entanto, ainda não são desmamando aos 28 dias, por quê?

Certamente, as motivações para manter a idade média ao desmame abaixo dos 28 dias não têm sido as mesmas para todos os produtores, mas tentarei apresentar as que, a meu ver, são as dominantes:

Desde meados de 2022, o uso de óxido de zinco em dietas foi proibido em toda a Europa, o uso de antibióticos foi restrito e essa restrição aumentará, pois a meta de consumo imposta pela União Europeia para 2030 significa reduzir em aproximadamente um 40% o consumo em 2021.O objetivo da estratégia Farm to Fork para reduzir as vendas totais de antimicrobianos na UE

A consequência direta dessas mudanças é que as mortalidades em 2022 aumentaram muito, dobrando as porcentagens que costumava ter até 2017. É verdade que a chegada de cepas de PRRS altamente patogênicas deixou sua marca, mas mesmo nas áreas da Espanha onde essas cepas ainda não haviam chegado (áreas NE e LS), a mortalidade também aumentou em relação a 2021.

Tabela 1. EN: Zona Noroeste, LA: Zona Leste e Sul, CN: Zona Centro Norte. Dados: IX Conferência SIP. 26 de janeiro de 2023.

Mortalidade sítios II Mortalidade sítios III
2020 2022 Variação 2020-22 Variação 2015-19 2020 2022 Variação 2020-22 Variação 2015-19
NE 5,2% 8,6% +3,4% NE 4,2% 6,0% +1.8%
LS 5,3% 6,4% +1,1% LS 4,2% 4,6% +0,8%
CN 4,3% 6,7% +2,4% CN 4,3% 6,7% +0,3%
ES 5,1% 8,3% +3,2% +1,9% ES 4,2% 5,7% +1,5% +0,3%

Resumindo: não podemos usar óxido de zinco em dietas pós-desmame e não temos no mercado produtos que o substituam com a mesma eficácia; o uso de antibióticos na ração é cada vez mais difícil e quando é feito na água de bebida os resultados não são os mesmos; a genética não para de melhorar, produzindo ninhadleitegadas mais numerosas a cada ano, o que reduz os pesos ao desmame; e por último, mas não menos importante, as cepas de PRRS altamente patogênicas vieram para ficar.

Diante desse cenário, o que mudou foi a motivação para desmamar leitões mais velhos. Pouco importa o objetivo que J. Barceló nos estabeleceu de desmamar 200 kg de leitões por fêmea por ano, se esses quilos de leitões nunca forem comercializados. A motivação para o desmame dos leitões mais velhos é agora a contenção das perdas e, assim, garantir a comercialização do que é produzido.

Alguns podem pensar que a qualidade do leitão ao desmame não é tão importante na redução da mortalidade, mas os dados que temos mostram o contrário.

Alguns produtores europeus veem a idade de desmame como a solução para os problemas gerados com a retirada do óxido de zinco e a redução do uso de antibióticos, que os está levando a desmamar leitões com mais de 28 dias. A decisão não deve mais ser baseada apenas em termos econômicos, como nos explicou J. Barceló, mas em termos de sobrevivência. Se as coisas não mudarem, e pelo que vemos não parece que vão mudar, este 2023 vamos perder, em média, 15% dos leitões desmamados. O consumidor entenderá que 15% dos leitões desmamados se perdem por mortalidade? É sustentável perder 15% dos suínos?

Estamos a chegar tarde ao que J. Barceló já propunha em 2009: atrasar a idade ao desmame, pelo menos, até 28 dias em média.