Em 2022, preços futuros de milho e soja atingiram o maior patamar em 10 anos

Carlos Andrés Castro
14-Set-2022 (há 3 anos 7 meses 15 dias)

Contexto mundial

A partir do último trimestre de 2021, os preços das matérias-primas iniciaram uma trajetória ascendente, derivada de diversos fatores conjunturais, como o aumento da inflação, a reativação das economias, os gargalos nas cadeias produtivas e as perdas nas safras sul-americanas devido a condições meteorológicas adversas. Uma tendência que se acentuou muito mais com a materialização da guerra entre Rússia e Ucrânia em 24 de fevereiro, sendo a Ucrânia o quarto maior exportador mundial de milho e com as restrições à navegação e comércio no Mar de Azov e no Mar Negro. Por causa da guerra, gerou-se uma crise de abastecimento que afetou principalmente a União Europeia e levou à volatilidade dos preços dos grãos nos mercados mundiais, que também transcendeu os preços da soja.

De fato, segundo dados da Chicago Board Trade (CBOT), os preços dessas matérias-primas este ano atingiram seu maior valor desde 2012, consolidando uma média de US$ 320/t (t) para o milho em 2 de maio e US$ 650/t. t para soja em 10 de junho.

De acordo com o relatório mais recente do Serviço Agrícola Estrangeiro do USDA: Grãos: Mercados Mundiais e Comércio, em 22 de julho as delegações da Ucrânia, Turquia, Rússia e as Nações Unidas assinaram um acordo para fornecer passagem segura de grãos dos portos ucranianos de Odessa, Chornomorsk e Pyvdenny, o que garantiria o movimento de grãos ucranianos através do Mar Negro. Esse acordo aliviou bastante a pressão sobre os preços mundiais do milho, que se refletiu na queda dos preços da CBOT em julho. Embora haja otimismo cauteloso sobre o acordo, os futuros das duas matérias-primas voltaram a transitar em trajetória ascendente a partir de agosto, como veremos a seguir.

Milho

Segundo a CBOT, o preço médio de agosto para o contrato com vencimento em setembro próximo foi de US$ 248,8/t, valor 14,5% superior à média de agosto de 2021 (US$ 217,3/t), variação de 10%. Por outro lado, a média dos seis contratos próximos ao vencimento (US$ 245,7/t), mostra um aumento de 5,2% em relação à média de julho (US$ 233,5/t) e de 12,1% em relação à média de janeiro (US$ 219,2). /t).

Tabela 1. Futuro médio de milho USD/t.

Vencimento

Mês set-22 dez-22 mar-23 mai-23 jul-23 set-23 dez-23
Jan 226,1 221,0 224,0 225,2 225,0 211,1 208,7
Fev 237,4 232,2 234,9 236,1 236,4 221,3 218,5
Mar 262,2 254,2 254,2 254,1 253,3 234,2 228,9
Abr 293,1 287,4 288,3 288,6 287,1 267,0 258,4
Mai 295,0 289,1 290,6 290,5 288,4 264,8 255,3
Jun 277,3 273,5 275,5 276,1 274,7 255,6 247,5
Jul 237,1 235,6 238,0 239,5 239,1 227,0 222,0
Ago 248,8 248,2 250,9 252,0 251,3 237,8 233,9
Var mensal jul - ago 5,0% 5,4% 5,4% 5,2% 5,1% 4,8% 5,3%
Var corrida jan - ago 10,0% 12,3% 12,0% 11,9% 11,7% 12,6% 12,1%

Fonte: CBOT, cálculos Departamento de Economia e Inteligência de Mercados 333 América Latina.

Devido ao exposto, temos que os contratos com vencimento entre setembro de 2022 e julho de 2023, estariam oscilando em torno de US$ 250/t, enquanto os com vencimento mais distante (setembro e dezembro de 2023) giram em torno de US$ 235/t.

Fonte: CBOT, cálculos Departamento de Economia e Inteligência de Mercados 333 América Latina

Soja

Para o mês de agosto, o preço médio do futuro da soja também apresentou tendência geral de alta, segundo dados da CBOT. De fato, para o contrato que vence no mesmo mês, consolidou-se uma média de US$ 600,1/t, o que significou um aumento de 18,8% em relação à média de agosto de 2021 (US$ 505,2/t) e de 9,2% em relação à média de julho passado (US$ 549,6/t). Da mesma forma, a variação do ano para este contrato significou um aumento no preço de 17,1%. Por outro lado, a média dos 6 contratos próximos ao vencimento foi de US$ 528,6/t, o que representa uma variação média mensal de 5% e 9,9% no acumulado do ano.

Tabela 2. Futuro médio de soja USD/t.

Vencimento

Mês ago-22 set-22 nov-22 jan-23 mar-23 mai-23 jul-23
Jam 512,3 492,8 482,6 482,7 477,2 475,3 476,0
Fev 568,3 541,6 526,4 525,4 515,8 512,2 510,9
Mar 586,9 557,1 539,4 535,5 522,7 518,7 517,3
Abr 594,3 565,6 550,1 550,1 543.7 543,0 543,0
Mai 589,5 564,5 551,0 552,1 548,0 547,5 547,0
Jun 590,2 562,9 554,8 556,2 552,7 551,7 550,4
Jul 549,6 508,2 501,8 504,1 503,1 502,9 501,6
Ago 600,1 551,0 522,1 524,4 524,7 525,0 524,2
Var mensal jul-ago 9,2% 8,4% 4,0% 4,0% 4,3% 4,4% 4,5%
Var corrida jan-ago 17,1% 11,8% 8,2% 8,6% 10,0% 10,5% 10,1%

Fonte: CBOT, cálculos Departamento de Economia e Inteligência de Mercados 333 América Latina.

O contrato que expirou em agosto caracterizou-se por marcar um gap muito acentuado em relação aos demais futuros. Por outro lado, o vencimento em setembro terminou com média de US$ 551/t, valor superior ao dos próximos vencimentos, que foram cotados em torno de US$ 522/t.

Fonte: CBOT, cálculos Departamento de Economia e Inteligência de Mercados 333 América Latina

Como afeta o setor de suínos

Levando em consideração o comportamento dos contratos futuros, podemos afirmar que a situação do mercado de matérias-primas é bastante complexa, tendo em vista a sensibilidade dos grãos e oleaginosas a choques externos como conflitos geopolíticos, clima desfavorável, aumento do preço do petróleo, entre outros fatores que geram grande volatilidade que mantém a tendência de alta dos preços.

O exposto se traduz em maiores custos de produção para o setor, principalmente naqueles países que possuem alta dependência das importações de milho e soja para a fabricação de suas rações balanceadas, como é o caso da Colômbia e do Peru. Nesse sentido, a situação fica ainda mais complicada se levarmos em conta os altos níveis de inflação que limitam o consumo e a desvalorização das moedas locais frente ao dólar, situação que encarece as importações.